Governo reduz cesta para flagelados
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quarta-feira, 29 de abril de 1998
Das agências 
O governo decidiu ontem reduzir quase à metade o tamanho da cesta básica para cumprir a promessa de atender, em 20 dias, a um milhão de famílias atingidas pela seca em 1.209 municípios do Nordeste.
Para o programa emergencial de combate à seca, a quantidade de alimentos da cesta básica do governo diminuirá de 19 para dez quilos. Depois disso, as cestas básicas deverão voltar ao peso normal. A redistribuição das cestas foi decidida pelo novo superintendente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), Sérgio Moreira. Ele foi escolhido pelo presidente Fernando Henrique para coordenar as ações de combate à seca.
Segundo Moreira, a ação emergencial do governo irá utilizar as cestas básicas que já estão em armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no Nordeste e fazem parte do Prodea, programa de distribuição de alimentos do Comunidade Solidária.
Centenas de trabalhadores rurais chegam diariamente a Juazeiro do Norte, a mais importante cidade da região Sul do Ceará, fugindo da seca e em busca de emprego e alimentos. O prefeito de Juazeiro, Mauro Sampaio, decretou estado de calamidade pública, segundo ele, a medida foi tomada para alertar as autoridades estaduais e federais para a gravidade do problema.
A forte estiagem e a acentuada diminuição dos níveis dos açudes levaram o governo do Rio Grande do Norte a decretar estado de emergência em 150 municípios, onde vive uma população de 1,5 milhão de pessoas. Ficaram de fora apenas a Grande Natal e cidades do litoral leste, numa área que vai do Rio do Fogo a Baía Formosa, na fronteira com a Paraíba.
A Federação dos Trabalhadores na Agricultura da Bahia (Fetag-BA) estima que a seca deixou sem emprego, nos últimos oito meses, cerca de 545 mil pessoas no interior do Estado. Dos 415 municípios baianos, 257 foram atingidos pela estiagem e destes cem decretaram situação de emergência. De acordo com o presidente da entidade, Édson Pimenta, a seca arrasou plantações e rebanhos em todas as regiões da Bahia, reduzindo a atividade econômica e expulsando os trabalhadores do campo.
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Cruz da Baixa Verde, a 450 quilômetros do Recife, suspeita que cerca de 200 trabalhadores rurais do município, que fugiram da seca em Pernambuco, podem estar sendo submetidos a trabalho escravo no Mato Grosso e em São Paulo. Segundo a presidente do sindicato, Arlinda Antônia de Lima, eles tiveram suas passagens pagas por empresas - não identificadas pelas famílias e pelo sindicato - interessadas em mão-de-obra para o corte da cana, e viajaram sem um tostão. Nessas condições, eles têm que fazer qualquer tipo de trabalho e podem ser obrigados a aceitar qualquer pagamento, analisa a sindicalista.
Em São Paulo, o movimento sindical começa a se mobilizar para ajudar os atingidos pela seca no Nordeste. Amanhã, na comemoração do Dia do Trabalho, a Força Sindical estará recolhendo alimentos não perecíveis dos que comparecerem ao Estádio do Pacaembu, onde desde 7 horas haverá futebol e shows. Diretores e assessores do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo já doaram R$ 31 mil em alimentos, valor que será descontado em cinco vezes de seus salários - cada diretor entrou com R$ 500 e cada assessor, com R$ 200. A empresa de transportes Michelon ofereceu carreta para levar os donativos, que sairá do estádio amanhã.


