Brasília - Um dia depois de cancelar a avaliação federal de alfabetização, o Ministério da Educação revogou a medida, em um novo recuo do ministro Ricardo Vélez Rodríguez. O episódio, que envolveu novas demissões, escancara um cenário de desarticulação dentro da pasta, disputas internas e riscos para ações educacionais do País.

A permanência de um ministro enfraquecido, sem autonomia para tomar decisões, expôs um MEC refém da articulação do grupo mais ideológico dentro do governo. Com ataques nas redes sociais e proximidade com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seus filhos, esse grupo, ligado ao escritor Olavo de Carvalho, tem conseguido eliminar um a um os servidores taxados como inimigos.

Além de suspender a prova de alfabetização, a portaria de segunda-feira (25) trazia regras para o Saeb, avaliação federal usada para o cálculo do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação). O MEC não explicou o que será feito - o que coloca em risco a realização do maior diagnóstico da educação brasileira.

Sem a definição, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) não pode seguir o cronograma, como a realização da licitação para a escolha de empresa que vai tocar aplicação da prova. Os secretários de Educação reclamam da saída das pessoas com quem conversavam e da falta de clareza, mesmo após quase três meses de governo, sobre a continuidade de programas como o financiamento a escolas de tempo integral e o apoio à implementação da Base Nacional Comum Curricular.

"A desarticulação do MEC tem reflexos na ponta. Estados e municípios passam a não ter certeza se podem contar com o governo federal", diz a presidente do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, para quem a situação atual é insustentável.

"Temos defendido uma nova equipe para o MEC, com nova liderança, novos secretários. O ministro não tem mais condições de atrair uma boa equipe, ficou evidente que ele não tem perfil para o cargo."

O MEC vive crise permanente desde janeiro, quando o ministro recuou da mudanças num edital de compra de livros que suprimia o compromisso com a agenda da não violência contra mulheres e permitia obras sem referências bibliográficas e com erros. Além de declarações infelizes nas duas únicas entrevistas que deu, Vélez enviou, em fevereiro, carta a escolas com o slogan da campanha de Bolsonaro e pedido de filmagem de alunos cantando o hino. O episódio causou grande desgaste e provocou novo recuo.

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