Governo reage contra ruralistas e MST
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segunda-feira, 30 de março de 1998
Agência Folha 
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse ontem, em São Luís, no Maranhão, que o governo vai usar o Ministério da Justiça e a Polícia Federal para acabar com a milícia criada por um grupo de fazendeiros paulistas e coibir invasões de prédios públicos feitas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O MST está reunindo documentos para entrar com processos contra fazendeiros e policiais do Pará, disse ontem de Parauapebas (PA), por telefone, o líder dos sem-terra Gilmar Mauro.É preciso que haja uma intervenção do governo federal aqui. Os fazendeiros e policiais formaram um grupo paramilitar em Parauapebas, afirmou.
Já reportei ao ministro da Justiça e a Polícia Federal vai tomar as providências chamando à satisfação quem está promovendo isso, que é ilegal e inaceitável, disse o ministro Jungmann. Fazendeiros de São Paulo criaram um grupo com cerca de 500 pessoas para combater, sempre que necessário, as ocupações de fazendas feitas pelo MST.
Sobre as declarações do líder do MST José Rainha Júnior, de que os sem-terra vão intensificar as ocupações a prédios públicos, Jungmann foi claro: Os prédios serão evacuados e quem tomará conta é a Polícia Federal. A nossa visão é que esse é um momento de bom senso e não é momento de radicalização.
Para o ministro, o último conflito no Sul do Pará, que resultou na morte de dois líderes do MST na região, é um problema de impunidade e não de reforma agrária. O que falta é administração da Justiça e o fim da impunidade, pondo na cadeia os responsáveis por aquela violência - o que eu espero que seja feito nas próximas horas, disse. Segundo Jungmann, o governo federal já investiu, nos dois últimos anos, US$ 180 milhões no sul do Pará.
O líder dos sem-terra, Gilmar Mauro, que deixou Parauapebas ontem à tarde, avalia que há risco de mais violência. Segundo ele, os sem-terra estão revoltados e o clima é tenso nas cidades do Sul do Pará. A Justiça não chegou aqui. A impunidade é um estímulo para o assassino. Os crimes vão continuar, disse. Só a desapropriação das fazendas invadidas pelos sem-terra, segundo a avaliação de Mauro, pode evitar novos confrontos.
O líder do MST voltaria a São Paulo ontem para organizar os protestos pelos dois anos do massacre de Eldorado de Carajás, no dia 17. Nesse dia, devem acontecer manifestações pela reforma agrária e contra a violência no campo em todo o País, na Europa e na Índia. Amanhã, o MST se reúne com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para discutir a liberação de verbas para os assentados.
Cerca de mil famílias ligadas ao MST invadiram anteontem a fazenda Jequitibá, em Naviraí (349 quilômetros de Campo Grande), em Mato Grosso do Sul. Lúcio Kuhnen, 31, da coordenação estadual do MST, disse que os sem-terra temem uma operação de despejo coordenada pela milícia nacional criada pelos ruralistas. Um avião sobrevoou a fazenda duas vezes anteontem e ontem. Segundo Kuhnen, a fazenda possui cerca de 17 mil hectares e quase nenhuma cabeça de gado.


