Governo quer discussões do mínimo no campo técnico14/Mar, 19:59 Por Christiane Samarco e Sílvia Faria Brasília, 15 (AE) - O governo decidiu hoje ganhar tempo para tentar trazer as discussões sobre o salário mínimo no Congresso ao campo técnico e financeiro. É esta a estratégia do Palácio do Planalto para retomar as rédeas das negociações em termos mais favoráveis ao Tesouro. "Queremos que a voz do governo seja ouvida porque todo o conteúdo da discussão estava sendo colocado na base do voluntarismo", resumiu hoje o secretário-geral da Presidência e coordenador político do governo, Aloysio Nunes Ferreira. O Planalto vai insistir, ao mesmo tempo, na discussão das fontes de custeio do reajuste do mínimo e nos ganhos conquistados pelo governo até aqui. A ordem é evitar o bate-boca com os políticos sobre o reajuste do mínimo e reorganizar o exército governista dentro do Executivo. A avaliação do Palácio do Planalto é a de que os números postos sobre a mesa de negociações até agora lhe são desfavoráveis. "Não que sejam mentirosos, mas o fato é que não mostram a verdade completa", diz um dos economistas do governo. Ele atesta que, para cada 5 reais de aumento do mínimo, o impacto nas contas públicas chega a R$ 1 bilhão por ano. "Achamos que o mínimo é um instrumento importante de distribuição de renda no País, mas não podemos pôr a perder o enorme esforço que o governo fez", alerta Ferreira. O Planalto quer aproveitar o palanque montado na comissão especial para mostrar ao País que a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) desde o início do governo soma 86%, enquanto o mínimo subiu 109%. Isto sem falar no aumento da cesta básica, que ficou em apenas 34%. Segundo um técnico da equipe econômica, a tendência do governo hoje é insistir em repor apenas as perdas causadas pela inflação. Mas, por enquanto, a idéia é defender a "solução responsável" para manter o equilíbrio fiscal e evitar a inflação. Mesmo sem mencionar cifras, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou claro, numa conversa com o relator da comissão especial, deputado Eduardo Paes (PTB), que considera "muito altos" todos os valores que surgiram nos debates do Congresso até agora. O presidente também se queixou ao parlamentar de que todas as sugestões de fontes de recursos para custear o novo mínimo apresentadas até aqui não são permanentes. O reajuste gera impacto imediato, enquanto nem o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza nem a contribuição sobre o lucro dos bancos têm capacidade de engordar já o caixa do governo porque dependem de aprovação do Congresso. Além disso, uma vez aprovada a contribuição, ainda seria preciso esperar 90 dias para iniciar a cobrança. Para dar consistência ao debate, a idéia do governo é levar ao Congresso, a partir da próxima semana, o secretário da Receita Federal, Everardo maciel, e os ministros da Fazenda, Pedro Malan, Planejamento, Orçamento e Gestão, Martus Tavares, Trabalho e Emprego, Francisco Dornelles, e Previdência Social, Waldeck Ornélas. A equipe econômica quer municiar a comissão especial criada na Câmara para tratar do salário mínimo com números mais globais. O governo concluiu que os deputados estão trabalhando apenas com dados que se referem à Previdência Social quando o aumento das despesas por conta do reajuste do mínimo vão bem mais longe. Além da conta dos aposentados, o mínimo tem impacto grande na seguridade social, por conta dos benefícios aos deficientes e aos idosos com mais de 65 anos que têm renda inferior a meio mínimo. Tem também o abono anual aos trabalhadores e as despesas com o seguro-desemprego. É tudo isso somado, que bate na casa do milhão de reais. A equipe econômica chegou à conclusão de que alguns valores apresentados isoladamente por setores do governo estão servindo a adversários. O caso mais complicado é o de Ornélas. Senador pelo PFL do presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), o ministro tem apresentado cálculos que consideram apenas os sete meses finais deste ano. Afinal, o novo mínimo só vai bater no cofre da Previdência em junho, uma vez que o reajuste será dado a partir de maio.

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