Brasília
O governo vai aplicar R$ 500 milhões nos próximos cinco anos na montagem de uma rede de monitoramento de doenças infecciosas e parasitárias, responsáveis pela morte de 39 mil brasileiros a cada ano. A vigilância dos casos e a rápida atuação para debelar surtos poderiam reduzir em mais de 50% a estatística de mortalidade por doenças, como diarréia e tuberculose, e a introdução em território brasileiro das doenças emergentes, aquelas surgidas no decorrer das últimas décadas.
A ineficácia do atual sistema de vigilância epidemiológica pôde ser comprovada este ano com o crescimento inesperado dos casos de sarampo: 16 mil registros no País. A dengue, extinta pelo menos quatro vezes, retornou nos anos 80 com o mosquito Aedes aegypti e o Brasil levou cinco anos para descobrir que o inseto se espalhava rapidamente. Oficialmente ocorreram 205 mil casos de dengue no ano passado.
‘‘Tanto nos pequenos municípios do Norte e Nordeste como nas grandes cidades, onde existem os bolsões de miséria, ainda há dificuldades de o sistema atual detectar e informar rapidamente a ocorrência de situações de risco’’, afirmou Jarbas Barobosa, presidente do Centro Nacional de Epidemiologia do Minsitério da Saúde. A cólera, por exemplo, segundo Barbosa, foi uma caso de ‘‘epidemia anunciada’’. Embora já se soubesse da ocorrência da doença no Peru, ele disse que a capacidade de bloqueio brasileira ‘‘foi baixa’’.
‘‘A globalização torna maior a movimentação de pessoas, e, consequentemente, das doenças, inclusive as novas’’, alerta o presidente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), George Alleyne, defendendo a relação entre o desenvolvimento da saúde pública e a vigilância constante. A Malásia, por exemplo, viveu recentemente um surto de endocardite, uma doença hemorrágica causada por um vírus desconhecido que ataca o tecido cardíaco. Os malasianos estão hoje no Brasil em plena atividade madeireira no Amazonas e Pará, sinalizando um perigo ainda não acompanhado devidamente.
Técnicos do Centro de Controle de Doenças de Atlanta (EUA) estão no Brasil para uma cooperação técnica de montagem da rede de laboratórios formada pelo Adolfo Lutz, de São Paulo, Evandro Chagas, de Belém, Ageu Magalhães, de Pernambuco, e o laboratório da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. O sistema de vigilância epidemiológica vai unir o Estado a cada um dos seus municípios e estes com seus hospitais de pronto-socorro, porta de entrada das doenças.
Os R$ 500 milhões estão divididos entre R$ 250 milhões de um financiamento em fase final de negociação com o Banco Mundial (Bird) e a contrapartida brasileira. ‘‘Queremos uma rede de informações sensível e rápida’’, explicou o presidente do Cenepi. Os analistas do CDC vão ajudar a montar um sistema de informática e a treinar pessoal.

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