Governo quer acordo com a Suíça para recuperar dinheiro de tráfico
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 08 (AE) - O governo brasileiro vai fechar um acordo com o governo da Suíça para recuperar metade do dinheiro que narcotraficantes brasileiros estão depositando no país. O governo localizou depósitos feitos pela traficante Sâmia Haddock Lobo e seu marido, Antônio da Motta Graça, o "Curica". Oficialmente, o governo brasileiro foi informado de que foi bloqueada uma conta com pouco mais de US$ 700 mil. Um trabalho de investigação da Polícia Federal com a Receita Federal, no entanto, identificou transferências do casal para a Suíça no valor total de US$ 10 milhões.
No próximo mês, o secretário Nacional Antidrogas (Senad), Walter Maierovitch, vai à Suíça para finalizar os detalhes do acordo. O secretário já agendou encontro com a procuradora Geral da Suíça, Carla De Ponti, para discutir as cláusulas. Mas já está definido que o acordo seguirá as mesmas bases de um acordo que a Suíça fechou com os Estados Unidos. A pedido dos EUA, o governo suíço devolveu aos americanos a metade dos US$ 175 milhões depositados em contas suíças pelo narcotraficante colombiano Júlio César Nasser Davi. Júlio César levava cocaína para os Estados Unidos e a Europa e depositava o dinheiro em bancos suíços, operações que eram feitas pela sua esposa, Sheila Arana.
O esquema de Júlio César e Sheila era semelhante ao do casal Sâmia e Curica. O casal brasileiro buscava cocaína na Colômbia e levava para Europa e Estados Unidos. Maierovitch disse que o acordo sugerido pelos Estados Unidos é uma das poucas chances de o Brasil resgatar o dinheiro. O secretário disse que o fechamento de um acordo semelhante ao dos EUA é uma das poucas chances de recuperar o dinheiro do casal de traficantes brasileiros.
O tipo de acordo que divide o dinheiro entre o país onde está a conta bloqueada e o país solicitante é uma forma de estimular o combate ao narcotráfico nas duas nações. Segundo Walter Maierovitch, tudo que for encontrado no mome de Sâmia, e que for recuperado para o Brasil, vai ser investido nas ações de combate ao narcotráfico no Brasil.
Maierovitch afirmou que o casal, nos processos a que respondem na Justiça Federal, diz que a origem do dinheiro estaria no ouro que encontraram em garimpos na Amazônia. O casal chegou a citar 200 quilos de ouro na declaração de bens à Receita Federal. Maierovitch acredita que esta seja uma forma esperta de lavar o dinheiro do narcotráfico. "Seria necessário terem várias serras peladas para que explorassem 200 quilos de ouro em um ano", disse Maierovitch.
Antônio da Motta Graça prestou hoje depoimento na CPI do Narcotráfico, mas não revelou a rede de narcotraficantes que atua no Brasil, conforme prometera em sessão secreta, na semana passada. Curica prometeu apenas entregar, por escrito, o nome de um famoso advogado, envolvido com o narcotráfico no Brasil. Os parlamentares disseram a Curica que poderiam sugerir ao Judiciário a redução da pena, caso ele revelasse todos os nomes, mas o traficante, que está preso no Carandiru, disse que se limitaria ao nome do advogado.
A CPI decidiu convocar para depor amanhã (09) a atual companheira de Curica, Silvana de Castro, que se apresentou hoje como advogada do traficante. Mas Curica revelou que Silvana é sua atual "mulher". O relator da CPI, deputado Morone Torgan, disse que Curica poderia estar armando outro plano de fuga ao pedir sua transferência para Manaus, para supostamente ficar perto da família. Silvana de Castro mora em Guarulhos.


