Paris, 26 (AE) - Tudo começou com a história de um jovem futebolista da Costa do Marfim de apenas 14 anos de idade. Ele foi trazido para a França por um intermediário pouco escrupuloso
tendo ingressado com um visto de turista de apenas três meses. Depois de um período de testes sem grandes resultados no Nantes acabou sendo abandonado pelo empresário e pelo clube, tornando-se mais um "clandestino" até ser descoberto quatro anos depois e expulso do país.
Esse caso serviu para alertar as autoridades do Ministério de Esportes da França, tendo a ministra Marie George Buffet determinado uma investigação junto aos centros de formação dos clubes profissionais e amadores, constatando-se mais de 100 casos dessa natureza. A maior parte, 62%, é originária dos países africanos de língua francesa, o que facilita uma mais rápida adaptação, mas 22% de outras regiões, sendo um número importante de brasileiros, atraidos pela fama e pelo dinheiro do futebol europeu. O sonho de muitos jovens brasileiros é muitas vezes efêmero e, na maioria dos casos, é a decepção que prevalece.
O autor do relatório, Jacques Donzel, lembra que esses jovens entre 14 e 18 anos são também recrutados por clubes de elite do futebol francês como Nantes, Bordeaux, Paris Saint Germain, Toulouse e Metz. Esse clube mantinha em estágio até pouco tempo atrás dois brasileiros. Cerca de 80 jovens estão espalhados em estruturas paralelas aos clubes, onde ocorrem os casos mais problemáticos. Eles dependem de um circuito opaco de intermediários bem informados sobre a legislação francesa que impede a expulsão de todo menor de 18 anos.
Isso lhes permite agir nessa faixa de idade. Esses são alguns dados do relatório entregue a ministra por seus assessores e que constitui uma verdadeira denúncia contra a organização do futebol do país campeão do Mundo.
Para o Ministério de Esportes da França, o tratamento desses jovens aproxima-se do praticado pelo sistema escravocrata europeu do final do século XIX. Aparentemente, os empresários reconhecidos pelas instancias do futebol, Federação Francesa e Liga de Futebol, agem corretamente, mas eles mantêm relações com um grande número de intermediários não reconhecidos que são os responsáveis pelo recrutamento desses jovens na áfrica e América Latina e que sonham ter o futuro de Rivaldo, Anderson, Christian
etc...
Os clubes profissionais também sonham revelar um novo Ronaldo, mas sem ter que pagar quantias exorbitantes aos clubes de origem. Por essa razão buscam recrutá-los o mais cedo possível. Isso explica o aumento dessa população estrangeira nos clubes da primeira divisão. O Lens que no ano passado só mantinha um jogador nessas condições, hoje mantém 12; o Rennes passou de 5 a 10 e o Nantes de 0 a 9.
Se o jovem aprova nos testes, os problemas são rapidamente solucionados, mas como isso não ocorre em 90 % dos casos, muitas vezes são abandonados e os problemas de ordem social se acumulam rapidamente. Alguns não aceitam voltar a seus países sentindo vergonha do fracasso, mas na maior parte dos casos é o intermediário o grande responsável, evitando aumentar o seu investimento não produtivo, depois de ter promovido um giro desses jovens por vários clubes europeus e sem grandes resultados.
Tudo é válido para contornar a lei. Ela prevê que um clube profissional só pode manter sob contrato 32 jovens na condição de aspirante, aprendiz , estagiário. Por isso, muitos clubes apoiam financeiramente estruturas paralelas. Esses centros de formação "bis" constituem verdadeiras fabricas de jogadores, sem qualquer obrigação exigida nos centros de formação dos clubes: escola, assistência médica, etc... Esses jogadores só recebem uma "indenização" para sua manutenção mínima, apesar de serem apresentados como amadores. Eles atuam no campeonato francês amador, aguardando o momento de serem contratados pelos clubes que atuam nas duas divisões superiores.
Um dos fatores que fizeram da França campeã do mundo foi o seu sistema de formação de jogadores, mas é por isso que a ministra dos Esportes, Marie George Buffet, pretende corrigir os desvios, moralizar certos aspectos. Dessa forma, seu ministério poderá adotar muito rapidamente medidas como maior controle dos centros de formação e desses centros paralelos, proibição das atividades dos "intermediários", não permitindo aos clubes a saída de dinheiro para remunerá-los; redefinição das responsabilidades da FFF e dos clubes em matéria de formação, além de obrigar a Liga de Futebol a não homologar os contratos sem estar segura de sua conformidade com as leis francesas de imigração.

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