Governo prepara reação política para recuperar credibilidade
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segunda-feira, 01 de fevereiro de 1999
Por Gerson Camarotti, Cláudia Carneiro, Demétrio Weber e Tânia Monteiro 
Brasília, 31 (AE) - O governo está preparando uma reação política para recuperar, junto à população, a credibilidade da equipe econômica. A estratégia será jogar todas as fichas contra os especuladores. O governo espera resgatar a confiança dos brasileiros na capacidade de reação do País. A principal ação será reabrir amanhã (01) o mercado sem o anúncio de nenhuma medida heterodoxa e demonstrar tranquilidade.
"Depois de uma boataria que tomou conta do País na sexta-feira (29), as pessoas irão perceber que estavam fazendo o jogo dos especuladores", disse hoje o articulador político do governo, ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga.
No fim de semana, enquanto a equipe econômica discutia com representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) uma solução para a crise financeira, o presidente Fernando Henrique Cardoso procurou demonstrar tranquilidade e participou de um churrasco na casa da irmã, Gilda Cardoso, que mora em Brasília. Acompanhado da primeira-dama Ruth Cadoso, ele aparentava descontração. Depois do almoço, ele recebeu no Palácio da Alvorada o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o secretário-executivo da pasta, Pedro Parente.
Porém, com quem conversou neste fim de semana, o presidente não escondeu a revolta com os especuladores. Voltou a chamá-los de chacais e a criticar o poder maléfico deles. "Para ganhar alguns milhões, eles são capazes de investir até na destruição do País"
confessou Fenando Henrique, por telefone, a Veiga.
Um assessor do presidente lembrou que, na sexta-feira, o terrorismo ficou restrito às pessoas físicas, não havendo pânico entre os agentes econômicos.
"A especulação de sexta serviu para aumentar o dólar no último dia útil do mês como forma de servir de parâmetro para fevereiro", denunciou Veiga, lembrando que a boataria teve como objetivo beneficiar alguns grupos. Para barrar novas especulações, Veiga garantiu que os integrantes da equipe econômica deverão reafirmar, durante toda a semana, o compromisso de que o governo não tomará nenhuma providência drástica na economia. "Ao longo dos próximos meses, não haverá medidas bruscas na condução do Real", assegurou Veiga.
Ele conta que, com a flutuação do câmbio, o governo esperava que acontecesse oscilações e movimentos acentuados no valor do dólar. "Mas essas variações foram bem mais fortes do que a expectativa do governo", revela Veiga. "Espero que os especuladores acabem logo com o estoque de maldades", afirmou o ministro. Ele alertou que a valorização anormal do dólar irá recuar da mesma forma que subiu, causando grande prejuízo aos especuladores. Veiga espera que a cotação da moeda americana diminua para 1,50 real. "Portanto, a armadilha dos especuladores pode ser o remédio para os próximos dias, já que o mercado será surpreendido por uma calmaria", avisou Veiga.
O articulador político do governo ressaltou que o sistema bancário está estruturado, com endividamento de apenas 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), um dos menores do mundo. "Isso garante que não haverá problema algum com os bancos brasileiros." Para o ministro dos Projetos Especiais, Ronaldo Sardemberg, a credibilidade do governo não está em jogo. "Foi um ataque especulativo e a população agiu precipitadamente, mostrando ainda estar traumatizada com o que o ocorreu no País no governo Collor", avaliou, referindo-se ao ex-presidente Fernando Collor de Mello.
O ministro ressaltou que o governo deverá insistir na meta de ajuste fiscal e mostrar determinação no projeto traçado para a retomada da estabilidade. "O País ficou desnorteado porque estávamos há cinco anos em estabilidade; perdemos o hábito de reagir à crise", afirmou Sardenberg. "Mas é preciso não ceder", completou.
Hoje à noite, Veiga reuniu os líderes políticos da base governo na Câmara para evitar a disputa entre os aliados durante esse momento de crise. O problema surgiu na semana passada, quando o PMDB tentava a todo custo atrair deputados, principalmente do PPB, para fortalecer a legenda. "Ninguém está disposto a aceitar especulação política", afirmou Veiga.
Ele tentará evitar mudanças partidárias até terça-feira (02), para garantir aos partidos um espaço político na Câmara equivalente à bancada eleita em outubro. "Estamos solidários com PPB", disse Veiga. "Não dá para disparar esse processo agora", comentou.


