Governo prepara plano contra saques
Estados serão orientados a abrir inquérito contra pessoas que, segundo ministro, estão fazendo ‘‘uso político da seca’’
Agência Estado

Arquivo Folha
‘‘Temos que
evitar esta
baderna social’’,
diz CalheirosEm uma ofensiva contra os saques em todo o Nordeste, o governo vai indiciar as pessoas que organizaram ataques a supermercados, armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e caminhões e cargas. Amanhã, o Conselho de Segurança do Nordeste - integrado por representantes da Polícia Federal, comandantes da Polícia Militar e secretários de Segurança Pública - vai se reunir em Recife, com o ministro da Justiça, Renan Calheiros, para definir um plano de segurança contra os saques na região. A Polícia Federal tem informações de que alguns saques estão sendo organizados por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Central Única dos Trabalhadores (CUT) vindos de outros estados.
‘‘Temos que evitar esta baderna social’’, afirmou Renan Calheiros à ‘‘Agência Estado’’. Ontem, ele esteve reunido com o vice-procurador geral da República, Haroldo Ferraz da Nóbrega, para traçar uma ação conjunta de indiciamento dos líderes dos saques, que estariam, segundo o governo, fazendo ‘‘uso político da seca’’. ‘‘O Ministério Público Federal e dos estados serão orientados a abrir inquéritos contra estas pessoas que estão atacando o comércio e os caminhões’’, acrescentou Calheiros, ressaltando que a intenção do governo é ‘‘acabar com a lei do mais forte’’ no sertão.
Segundo o ministro da Justiça, a reunião de amanhã em Recife vai definir como os órgãos de segurança na região reprimirão os saques que já atingem várias cidades, principalmente do Ceará e Pernambuco, onde a seca é mais intensa. ‘‘No caso do saque aos dez caminhões ocorrido perto de Petrolina, as pessoas que atacaram os motoristas tiraram o direito de outras pessoas’’, afirma Calheiros. ‘‘Os saqueadores não permitiram que a alimentação chegasse a uma parte da população que também necessitava’’, acrescentou. Até agora, apenas duas pessoas foram presas e a própria polícia teme enfrentar os saqueadores.
O encontro também terá a presença da direção da Polícia Rodoviária Federal que ficará com a responsabilidade de monitorar o movimento de sem-terra e flagelados nas estradas. No ataque a dez carretas no interior de Pernambuco, os patrulheiros rodoviários pouco puderam fazer, já que havia em todo o trecho - de aproximadamente 112 quilômetros - apenas quatro policiais, enquanto o número de sem-terra ultrapassava dois mil. As superintendências e delegacias da PF também serão acionadas nas regiões onde houver ataques de sem-terra, trabalhando com as polícias Civil e Militar.
Renan Calheiros afirmou que a Polícia Federal está fazendo um levantamento para saber quem são os líderes dos ataques no Nordeste. Segundo ele, a PF tem informações de que integrantes da CUT e MST foram deslocados para a região para incitar ou comandar os saques. ‘‘É preciso indiciar estas pessoas que, na verdade, estão tentando criar apenas fatos políticos com esta atitude’’, disse Calheiros.
O presidente Fernando Henrique Cardoso acusou ontem seus opositores de ‘‘usar da pobreza e da fome’’ para desorganizar a distribuição de cestas de alimentos aos flagelados pela seca no Nordeste. A acusação foi feita durante solenidade de assinatura de convênio para a liberação de R$ 1 bilhão de recursos do orçamento Federal, nos próximos quatro anos, para o desenvolvimento econômico da metade Sul do Rio Grande do Sul, realizada no Planalto. Fernando Henrique voltou a dizer que o movimento de saques a supermercados e depósitos de alimentos é uma ‘‘imoralidade’’ e cobrou organização dos diferentes segmentos da sociedade para uma ajuda efetiva aos flagelados.

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