Brasília, 1 (AE) - O ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho, está preparando "uma surpresa" para aplacar o ceticismo dos que trabalham com a perspectiva de que a privatização das empresas de energia elétrica será adiada para o próximo ano devido as resistências políticas e corporativistas que contaminam o processo de venda das estatais do setor. A decisão de tornar Tourinho o presidente do Conselho de Administração da Telebrás evidencia a preocupação do governo na condução do processo e para reafirmar sua intenção de dar continuidade a venda das elétricas não está descartada, sequer, a divulgação de um cronograma das próximas privatizações, sistemática abandonada há algum tempo. "O ministro não assumiu o Conselho para não fazer nada, e certamente adotará medidas pontuais", garantem fontes do setor que aprovaram a decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Essa intenção, no entanto, não é suficiente para conferir tranquilidade a estimativa de arrecadar este ano R$ 29 8 bilhões com a venda de estatais, sendo que R$ 26,1 bilhões com a privatização de estatais federais. Embora não se conheça o cronograma montado pelo governo para atingir esta receita, já é fato para o governo que este cronograma está atrasado e constitui uma variável de incerteza na execução do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O secretário Executivo do ministério da Fazenda, Amaury Bier, e o ministro da Casa Civil, Pedro Parente, admitiram à Agência Estado que o cronograma de privatização está atrasado. Mas mantêm uma postura de distanciamento da área sob comando de Tourinho. "Vamos privatizar as empresas do setor elétrico o mais cedo possível. Mas quando será a data ainda não se sabe", disse Parente. "Tudo dependerá da viabilidade política que vier a ser costurada" , acrescentou o ministro.
A costura política do processo de privatização das empresas de energia elétrica é um importante desafio do ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho, e pode demandar um tempo maior do que o desejado pelo ministro. A indicação de Tourinho para a presidência do Conselho de Administração da Telebrás foi adotada não apenas para credenciar o ministro como interlocutor privilegiado junto a governadores e prefeitos, mas para enfrentar "de frente" o corporativismo que se montou nas empresas, que mantém do mesmo lado as tendências políticas mais variadas.
Tourinho pretende transitar nestes meios políticos e trabalhistas com "jogo de cintura" para conseguir uma sintonia fina que, sabe, não será nada fácil. Ele tem que enfrentar a resistência dos governadores do Nordeste, que identificam um risco à sobrevivência da população da região a privatização da Chesf, por exemplo. Aliás, a venda da Chesf está na dependência direta da aprovação da ANA, a Agência Nacional de águas. Enquanto o projeto tem seu ritmo lento no Congresso, Tourinho tratará de garantir a governadores e prefeitos que a ANA assegurará que não faltará água para consumo humano, que as roças nordestinas não secarão, e tampouco correrão riscos os projetos empresariais de irrigação na região. Não bastassem as resistências de trabalhadores e líderes políticos à privatização das empresas de energia elétrica no nordeste e a modelagem da venda de empresas como a Eletronorte e Tucurui, existe o obstáculo oferecido pelo governador de Minas Gerais, Itamar Franco, que divide a cena de resistência com o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Minas e Rio se posicionam contra a venda da já chamada "joia da coroa": Furnas Centrais Elétricas. Há quem acredite, no entanto, que tanto Garotinho quanto Itamar já não estão tão aguerridos. "O Itamar já está domado", comentou um articulador político do governo. O ministro Tourinho, garantem estas mesmas fontes, está confiante, mas não miniza as forças que terá que arregimentar para conduzir estas negociações e tem claro que o segredo é dar um passo de cada vez, ou como prefere, uma solução para cada caso.

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