Brasília, 12 (AE) - Atendendo a uma solicitação do presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Justiça, Renan Calheiros, anunciou hoje a instauração de inquérito pela Polícia Federal para apurar esquema pelo qual um funcionário do Banco Central teria municiado os bancos Marka e FonteCindam com informações privilegiadas, conforme reportagem publicada pela revista Veja.
Hoje a PF iniciou uma operação em todo o País para tentar encontrar o ex-presidente do Marka, o banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, que teria falado a amigos sobre um esquema pelo qual quatro bancos, entre eles Marka e FonteCindam, teriam pago propinas a um funcionário do BC. A PF vai ouvir atuais e ex-diretores do BC.
Fernando Henrique ligou para Calheiros na noite de domingo, irritado com as notícias sobre suposto envolvimento de funcionário do BC, que teria repassando informações confidenciais aos bancos durante as mudanças cambiais. Os bancos Marka e FonteCindam compraram dólar a R$ 1,27, dia 14 de janeiro
abaixo da cotação do dia: R$ 1,55.
Fernando Henrique disse a Calheiros que era necessário investigar o assunto ao máximo, para que não pairassem mais "nuvens" de suspeição sobre a ação do Banco Central.
Nas ruas - Além da abertura do inquérito, Calheiros determinou à PF que colocasse os homens nas ruas para encontrar Cacciola no País. As primeiras informações recebidas pelo governo federal davam conta de suposta viagem do ex-presidente do Marka para o exterior.
A secretária de Cacciola no Rio informou à Polícia Federal que seu chefe tinha viajado, mas não informou o destino. O diretor-geral interino da Polícia Federal, Wantuir Brasil Jacine, disse que colocou várias equipes na tarde de hoje para investigar o paradeiro do banqueiro.
Os policiais federais consultaram as listas de viagem de companhias aéreas para checar se Cacciola teria viajado com nome falso. "Já colocamos várias equipes atrás dele", disse o diretor-Geral da PF.
Jacine, no entanto, afirmou que vai conduzir o inquérito com ou sem o depoimento do ex-presidente do Marka. O inquérito terá de ser concluído em 30 dias. "Há várias possibilidades para levantarmos as informações", disse.
Sigilo - A primeira iniciativa da PF hoje seria pedir a quebra dos sigilo bancário e telefônico de Cacciola e de todas as pessoas envolvidas, para cruzar informações sobre os telefonemas e supostas transferências bancárias para pagamento de propinas a funcionários do BC.
O ministro Calheiros disse que, se necessário, a PF pedirá a prisão preventiva de pessoas que estejam envolvidas com irregularidades. "Os meios obscuros e subterrâneos são utilizados pelos criminosos de colarinho branco para enriquecerem às custas da sociedade", discursou. "É preciso dar um basta nisso, combatendo a impunidade."
Além do ex-presidente do Marka, será ouvido o economista Rubens Novaes, suposto contato entre o Banco Marka e o Banco Central. Serão ouvidos ainda o ex-presidente do BC Francisco Lopes, em cuja gestão teriam ocorrido as operações irregulares, e o banqueiro Luís Antônio Gonçalves, do FonteCindam.
Calheiros anunciou hoje que vai solicitar à Justiça Federal que as pessoas envolvidas no inquérito sejam impedidas de deixar o Brasil. O ministro pediu ao procurador-Geral da República, Geraldo Brindeiro, que nomeie um procurador para a companhar todo o inquérito, para auxiliar nas investigações.
Jacine designou para presidir o inquérito o delegado Luís Pontel de Souza, da Divisão de Combate ao Crime Oranizado e Investigações Especiais da PF, de Brasília. O delegado é especialista em investigações na área financeira.
Propina - Calheiros disse que o governo tomou a iniciativa de instaurar inquérito policial por ser esta a primeira vez que há denúncias sobre pagamento de propina e vazamento de informações privilegiadas."Não podemos permitir que a cada momento haja informações sobre relações promíscuas do Banco Central com bancos privados", disse o ministro.
O ministro disse que, se confirmadas as denúncias, os responsáveis poderão ser processados por corrupção ativa e passiva. O ministro negou que o governo tenha instaurado inquéritos para esvaziar a CPI dos Bancos. "As investigações da Polícia Federal acontecerão em colaboração com os trabalhos da CPI dos Bancos", disse.

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