Governo pode ter dificuldades de atender anseios da população Da enviada especial DENISE NEUMANN
Buenos Aires, 25 (AE) - Terminadas as eleições, a sociedade argentina começa a esperar pelo "câmbio". Esta palavra foi usada indiscriminadamente por populares, empresários, executivos do mercado financeiro, políticos e economistas para expressar a vontade de uma mudança no rumo do país. Há contudo, um hiato entre o que quer a população e o que pode ser obtido, no curto prazo, como resultado da política econômica do novo governo.
A população quer emprego e quer manter a estabilidade. O governo promete austeridade fiscal, para convencer os investidores que o risco de investir no país é baixo e, assim, aumentar o ingresso de capitais que então permitiriam incrementar a economia e criar empregos.
O presidente eleito, Fernando De La Rúa, confirmou hoje que pretende fazer um ajuste fiscal superior ao US$ 1,8 bilhão que está previsto no orçamento para 2000 que foi enviado ao Congresso pela atual equipe econômica. A intenção é cortar gastos em US$ 1,5 bilhão e obter mais um ajuste adicional com aumento de arrecadação, que viria principalmente do combate à evasão fiscal.
O risco embutido em um ajuste fiscal forte é um efeito recessivo sobre a economia argentina, que poderia abortar o ciclo positivo já iniciado, cujo resultado seria ruim para a redução do desemprego. A última taxa foi medida em maio e indicou um desemprego de 14,5%. Esse número hoje é maior, diz Ernesto Kritz, da Sociedade de Estudos Laborais. Poderia estar entre 16% e 17%.
O presidente eleito disse hoje que não pretende anunciar logo sua equipe de governo, mas confirmou que as duas primeiras ações serão na área fiscal e de apoio a pequena e média empresa, setor que poderia criar empregos mais facilmente.
O nome mais cotado para o Ministério da Economia é o de José Luís Machinea, economista que foi presidente do Banco Central durante o governo de Raúl Alfonsin e hoje comanda a equipe técnica que elaborou o programa econcômico da Aliança UCR-Frepaso.
Sem saber quem será o ministro e os outros nomes que ocuparão postos-chave na área econômica, o mercado financeiro argentino não consegue saber qual será a cara e o ritmo do governo, explica Luís Corsiglia, da corretora de valores Corsiglia & Cia.
A expectativa, observa, é que o governo realmente faça um ajuste superior aos US$ 1,8 bilhão. Mas é preciso que se diga como ou que se apresente uma equipe cuja composição mostre que resultados melhores poderão mesmo ser obtidos nas contas públicas.
Medidas urgentes, e de impacto, na área fiscal seriam importantes para a captação de recursos e ajudariam o país a honrar seus compromissos de vencimento da dívida externa, cujos vencimentos acumulam US$ 3,5 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2000.
Hoje, contudo, o mercado financeiro não mostrou qualquer preocupação com o resultado eleitoral e nem com o fato de De La Rúa informar que não vai anunciar imediatamente sua equipe. Como acontece com frequência nestas ocasiões, o mercado antecipou o que considerava uma boa notícia.
Na semana passada, o índice Merval da Bolsa de Buenos Aires subiu 7,5%.
Hoje, o dia foi de poucos negócios, contou Corsiglia. A bolsa iniciou o dia em queda, acompanhando o movimento de Nova York, mas depois recuperou e faltando uma hora hora para fechamento dos negócios estava positiva.





