Brasília, 26 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso subestimou a repercussão da denúncia do grampo no BNDES, que atingiu o governo logo depois da reeleição em primeiro turno, em outubro do ano passado, julgando que ao final de tudo prevaleceriam as boas intenções do seu governo. Fernando Henrique não teria provavelmente se enfraquecido tanto se tivesse tratado o tema como uma questão essencial de Estado e exigido responsabilidade e lealdade de seus aliados e promovido a devida apuração policial do caso e a punição dos culpados pela escuta telefônica ilegal.
Da mesma forma que no episódio do ano passado, o alvo é outra vez o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, que acaba de assumir uma das vice-presidências do PSDB, e o grupo que ele representa na aliança que apóia o governo. O protagonista central desse grupo, como se sabe, é o governador Mário Covas, o nome mais forte entre os tucanos para disputar a sucessão presidencial de 2002. A volta do ex-ministro à cena política na convenção nacional do PSDB, com o respaldo de Covas, produziu nos bastidores o mesmo impacto provocado pelo anúncio da criação do Ministério da Produção pelo presidente da República no dia seguinte à sua reeleição.
Recuperado politicamente pelo governador paulista, Mendonça de Barros precipitou o debate sobre a natureza da política econômica, provocando a interpretação de que o grupo de Covas trabalha para assumir posição estratégica na condução da política econômica colocando-se, desde já, em posição de vantagem na corrida sucessória. Embora neguem oficialmente motivação política para a volta do assunto ao noticiário, os políticos bem informados de Brasília concordam que o PSDB e Covas, além do próprio presidente, agora diretamente envolvido no caso, serão os principais prejudicados no episódio.
Os maiores interessados no enfraquecimento político de Fernando Henrique e da posição do PSDB na corrida de 2002 seriam o PFL e o PMDB, os principais parceiros dos tucanos na aliança que governa o Brasil. Depois da turbulência causada pelas CPIs do Sistema Financeiro e do Judiciário, criadas por iniciativa desses dois partidos, o presidente abriu entendimentos com o PMDB e o PFL para a redistribuição do poder na coalizão governista.
Os primeiros passos para materializar o reordenamento das forças partidárias governistas foram dados com a nomeação de um senador do PMDB, Fernando Bezerra (RN), para a liderança do governo no Senado e de um deputado do PSDB, Arthur Virgílio Neto (AM), para a liderança no Congresso. A expectativa é de que a segunda etapa desse acordo seja a reforma parcial do ministério, na qual estariam em disputa as ambicionadas posições de ministro da Fazenda e de ministro do Desenvolvimento, além das pastas da Agricultura e da chefia do Casa Civil. A crença dos políticos em geral é de que em um governo exitoso o controle dessas cadeiras significa meio caminho andado para eleger o sucessor do presidente da República.

mockup