Governo negocia com o PFL trégua nas críticas de ACM
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quinta-feira, 06 de janeiro de 2000
Por Gerson Camarotti 
Brasília, 06 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso determinou a seus assessores e ministros mais próximos que não respondam mais às críticas feitas ao governo pelo presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). "A ordem é deixar ACM falando sozinho", disse um interlocutor do presidente. "É preciso preservar as relações institucionais." Por outro lado, integrantes do governo começaram a procurar hoje caciques pefelistas para acertar uma trégua nas críticas do senador ao governo. "A situação ficou insustentável", reconheceu um influente pefelista. "Chegamos ao limite; agora é preciso baixar a temperatura", reforçou uma liderança tucana.
A gota dágua aconteceu na quarta-feira, durante a sessão de abertura da convocação extraordinária, quando ACM cobrou a votação da emenda constitucional que limita o uso de medidas provisórias pelo presidente. "Ele virou a principal liderança da oposição", avaliou um ministro do governo. Publicamente, políticos aliados recusam-se a falar sobre o episódio, mas nos bastidores demonstram preocupação. Um frequente interlocutor do presidente no Palácio da Alvorada constatou que nunca a relação entre os dois políticos esteve tão ruim. Segundo ele, durante todo esse tempo, o presidente evitou o confronto.
Na avaliação de Fernando Henrique, o senador baiano colaborou para difundir a imagem de que é um governante "inseguro e titubeante", segundo palavras do próprio presidente. Também incomodou ser chamado de "indeciso" por ACM. Para assessores do Planalto, o senador baiano virou um "franco-atirador".
Nos jornais de hoje, há declarações do presidente do Senado sobre três assuntos diferentes, posicionando-se de forma contrária ao Palácio do Planalto: na defesa do Orçamento impositivo, que tira do Executivo o poder de liberar ou segurar recursos para gastos previstos; ao pedir que a equipe econômica reveja sua posição contrária ao reajuste dos servidores públicos; e ao pedir a restrição total ao uso de medidas provisórias pelo governo.
Segundo esses mesmos assessores, ACM acaba dando munição à oposição para aumentar as críticas ao governo de Fernando Henrique. A interpretação de um tucano é de que os ataques de ACM aumentaram no momento em que começou a perder "palanque". "Como o mandato do presidente do Senado termina em um ano - sendo que boa parte desse período vai ser ofuscada pelas eleições municipais - ACM percebeu que em breve estará sem espaço na mídia", disse o tucano.
Alguns políticos estão preocupados com a governabilidade do País. "Não dá para ACM ficar dizendo o que dá e o que não dá para fazer", disse outra liderança tucana. Segundo esse político, ACM cria polêmicas para ofuscar recentes episódios na imprensa em que aparece numa situação desconfortável, como as críticas feitas pelo ex-presidente João Figueiredo, que o chamou de "corrupto".
O governo prevê um desgaste cada vez maior na relação entre o presidente e ACM. A divergência entre os dois é antiga. Durante a campanha presidencial de 1994, o senador baiano teve uma presença pequena no palanque de Fernando Henrique. A relação tumultuada só teve uma trégua quando o deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), filho de ACM e líder de FHC, morreu em abril de 1998. Nesse momento, o senador pefelista evitou fazer críticas e honrar os compromissos assumidos por seu filho. Esse foi o período que ACM ficou mais próximo do presidente, participando ativamente de sua reeleição.
Mas a lua-de-mel durou pouco. No início do ano passado as divergências recomeçaram, época em que o governo de Fernando Henrique enfrentou o pior momento de popularidade por causa da desvalorização do real. Em junho, durante as negociações para a instalação da fábrica da Ford na Bahia, ACM silenciou. A nova onda de tensão teve início em dezembro. Apesar do confronto, as lideranças do PFL e do PSDB garantem que a aliança entre os dois partidos está longe de terminar, pois acima das divergências estão os interesses comuns, bem maiores.


