Governo não atende sem-teto em Brasília
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segunda-feira, 09 de junho de 1997
Agência Estado Brasília 
Fracassou o primeiro dia de manifestações da caravana da Central de Movimentos Populares (CMP) em Brasília. Em meio a divisões e desentendimentos entre os coordenadores dos vários movimentos e também por falta de líderes, os manifestantes limitaram-se a reunir com assessores de gabinetes ou protocolar o documento Propostas de Políticas Públicas - já entregue em 1995 a órgãos federais e ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
Segundo avaliação dos organizadores do movimento, mais de 3,2 mil pessoas participaram ontem das manifestações. A estimativa da CMP era de que Brasília recebesse sete mil pessoas. A Polícia Militar do Distrito Federal, que colocou um efetivo de 1,3 mil policiais nas ruas, avaliou em no máximo dois mil o número de manifestantes.
O primeiro ato do dia seria uma audiência com o ministro do Planejamento Antônio Kandir. Os manifestantes seguiram do gran circo da Esplanada dos Ministérios escoltados por policiais até o Ministério do Planejamento. Ao invés da audiência, o ato se resumiu à entrega do documento ao assessor especial do ministro, Ricardo Tortorela.
Esse fato foi o suficiente para provocar discordâncias entre vários coordenadores dos movimentos populares. Foi péssimo, desabafou a líder do Fórum dos Cortiços, Verônica Kroll. É muito ruim trazer o pessoal de tão longe para não ter audiência, não ter nada, mas só canseira, disse.
Com o fracasso do primeiro ato, alguns coordenadores pressionaram à direção da CMP para mudar a estratégia das manifestações. Entretanto, após o almoço, os manifestantes seguiram em direção ao Ministério do Trabalho, conforme estava prevista na agenda da caravana. Lá, uma comissão foi recebida pelo secretário executivo do ministério, Antônio Augusto Anastazia. A reunião demorou menos de cinco minutos.
Os manifestantes foram, em seguida, para a sede da Caixa Econômica Federal (CEF), onde fariam um ato de protesto contra a falta de políticas de financiamento para a moradia popular. Cerca de 70% dos participantes da caravana são de movimentos de habitação popular. Entre as reivindicações dos movimentos estão a criação do Fundo Nacional e do Conselho Nacional da Habitação, que aumentam os recursos dos municípios para a construção de moradia.
Segundo a coordenadora da Pastoral da Moradia Evaniza Rodrigues, o governo federal possui dois programas que não atendem à população de baixa renda. E, para os movimentos, os governos devem subsidiar a habitação. A moradia para a população de baixa renda precisa ser paga também pelo governo, afirmou. A atitude do governo de fazer com que as comissões dos movimentos populares fossem recebidas por auxiliares deixou a maioria dos manifestantes revoltada. A nossa proposta é não aceitar mais palhaçada e o que o governo tem feito é querer nos desmoralizar, afirmou a coordenadora da União das Mulheres Cearenses, Regina Célia Zanetti. Ela também integra a coordenação nacional da CMP.
O grande temor dos coordenadores é de que a caravana fracasse também perante a opinião pública. Ao contrário da marcha dos Sem-Terra, que chamou a atenção da sociedade para o problema da reforma agrária, os outros movimentos populares padecem de líderes que representem e organizem a caravana. Os movimentos de sem-teto, favelados, mutuários, por saúde, educação, direitos humanos ficaram em Brasília à espera de reuniões que não se realizaram. Transformaram-se em os sem-encontro.


