Brasília, 25 (AE) - O governo mobilizou hoje os principais aliados para defender o presidente Fernando Henrique Cardoso da acusação de ter interferido no leilão de privatização da empresa Telecomunicações Brasileiras (Telebrás) e evitar um processo de impeachment contra ele.
No fim da manhã, a possibilidade de impeachment era completamente descartada pela base aliada, que tem a maioria no Senado e na Câmara. A oposição baseou-se na reportagem publicada na edição de hoje do jornal "Folha de S. Paulo", na qual são divulgadas fitas com conversas telefônicas grampeadas, que mostrariam diálogos de Fernando Henrique com o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), André Lara Rezende, autorizando o uso do próprio nome para favorecer um dos grupos no leilão da empresa Telecomunicações Brasileiras (Telebrás), em 1998.
A estratégia do governo foi a de desacreditar o conteúdo da reportagem. "Durante todo o processo de privatização, o presidente Fernando Henrique recebeu informações genéricas sobre o que se passava e tinha interesse que houvesse o maior número de participantes no leilão", disse o ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, escalado pelo Planalto para fazer a defesa oficial do presidente. "Mas, em nenhum momento, ele autorizou que o seu nome fosse usado para pressionar a Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil) a entrar no consórcio do Banco Opportunity", assegurou Veiga.
Ele reclamou que o conteúdo das conversas divulgadas não sustenta a manchete. "Foi uma manchete sensacionalista, já que a matéria não é nova; é como se fosse um café requentado", completou o ministro, estranhando o fato de o jornal ter dedicado 14 páginas para o assunto, sem ter dado ao presidente o direito de resposta. Ele ainda admitiu a possibilidade de o governo examinar a hipótese de processar o jornal. Mas, no Planalto, essa possibilidade é vista com receio, uma vez que daria mais publicidade ao assunto, o que governo não quer neste momento.
Enquanto Veiga falava pelo governo, no Congresso, os principais líderes aliados também faziam a defesa do presidente, numa estratégia sintonizada. A palavra de ordem foi dada pelo presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). "Não há nada ali que incrimine o presidente", enfatizou ACM. Segundo o senador, o presidente foi "apenas solicitado para falar com a Previ" ,com o objetivo de evitar um leilão sem concorrentes. "Apenas um auxiliar seu, aí não se sabe com que intenção, pediu para que o presidente interferisse para que houvesse mais um concorrente", minimizou ACM. Ele foi além, e descartou qualquer possibilidade de haver uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) da privatização, até porque, segundo ele, não haverá assinaturas suficientes. "Este é um capítulo encerrado". Mesmo assim, ACM disse que o diálogo divulgado não é bom, "sobretudo sobre a linguagem utilizada". "Não é uma linguagem de autoridade", criticou o senador baiano
fazendo uma referência ao ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros.
Já o presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), assegurou que não há substância para um impeachment. "O presidente não cometeu ato de improbidade administrativa", disse Barbalho. Mesmo assim, para ele, ficou claro pelas conversas divulgadas, que os funcionários do governo responsáveis pela privatização não levaram ao conhecimento do presidente todos os detalhes sobre o favorecimento de um determinado grupo no leilão da Tele Norte Leste. "É lamentável que essas pessoas tenham envolvido o presidente, que jamais teve conhecimento de todas as intenções"
disse Barbalho, fazendo uma referência a Barros e Resende. O líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), também adotou a mesma linha. "Naquele momento, ninguém sabia qual era o melhor caminho; portanto, não restava ao presidente da República senão concordar com seus subordinados".
A convocação de Veiga para defender o governo foi a alternativa encontrada pelos interlocutores de Fernando Henrique para preservar o presidente. O governo ficou dividido sobre quem deveria falar. Mas, no início da tarde, prevaleceu o argumento daqueles que defendiam o risco de um desgaste do presidente, caso ele falasse publicamente. Para proteger a imagem de Fernando Henrique, os assessores do presidente tiveram o cuidado de mudar o local da entrevista de Veiga, que, inicialmente, seria no Palácio do Planalto, para o Ministério das Comunicações.
Fernando Henrique irritou-se com o episódio. No início da manhã, os interlocutores mais próximos do presidente estavam preocupados com a repercussão da notícia. "Afinal, é a primeira vez que o nome do presidente estaria envolvido diretamente num escândalo", avaliou um assessor. Imediatamente, o presidente reuniu-se no Palácio da Alvorada com Veiga e o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), para montar a estratégia de defesa.
Enquanto conversava com os dois políticos tucanos, Fernando Henrique recebeu o telefonema de ACM, que garantiu total solidariedade. "Ele agradeceu bastante o apoio do senador", relatou Virgílio Neto. A avaliação feita hoje dentro do ninho tucano é que, a partir desse escândalo, Fernando Henrique está cada vez mais dependente do PFL e do PMDB. Hoje mesmo, alguns integrantes do PSDB demostravam o desconforto com a situação causada por Barros. "Essas fitas são constrangedoras", lamentava o senador Carlos Wilson (PSDB-PE). "Tudo isso aconteceu depois que ele foi eleito vice-presidente do partido, o que poderia ter sido evitado", argumentou Wilson, fazendo uma conexão sobre os dois episódios.

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