Brasília, 09 (AE) - Um dia depois da reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso, os sem-terra conseguiram hoje a liberação de mais R$ 100 milhões para a reforma agrária, em condições especiais. O presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Nélson Borges, anunciou hoje que o governo emprestará o dinheiro nas mesmas regras do extinto Programa Especial de Crédito para a Reforma Agrária (Procera), para os projetos aprovados pelas comissões estaduais no ano passado. Com a extinção do Procera, não havia expectativa de liberação da verba.
A decisão do governo, anunciada hoje depois de uma reunião entre representantes do Incra e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), foi comemorada pelos trabalhadores rurais como mais uma vitória, já que na reunião com o presidente, na noite de quinta-feira, o governo insistia que os contratos acertados nas comissões do Procera fossem "adequados" à nova linha de crédito. Hoje mesmo, os 500 manifestantes acampados na Esplanada dos Ministérios voltaram para os seus Estados. Os financiamentos do Procera garantiam desconto de 50%, segundo o Incra. A nova linha de crédito com desconto incorpora a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).
O presidente do Incra disse que governo e sem-terra chegaram a esse acordo a partir de decisão política do presidente Fernando Henrique Cardoso de recompor o orçamento do instituto. "Esse avanço é grande", disse Nélson Borges. Os sem-terra acompanharam a reunião de hoje na porta do prédio onde fica o Incra, em Brasília. Um dos coordenadores nacionais do MST
Egídio Brunetto, que participou da reunião, mostrou-se surpreso com o que considerou uma nova vitória dos sem-terra. Brunetto, no entanto, afirmou que a entidade vai esperar o governo cumprir as promessas feitas para depois emitir uma opinião. "Nossa filosofia é a de São Tomé", disse. "Só vendo para crer".
Ele acredita que, se o governo realmente honrar os acordos feitos no ano passado, terá de liberar R$ 100 milhões, o que, em seus cálculos, daria para assentar 40 mil famílias. Atingir a meta de 85 mil famílias, como quer o Ministério de Política Fundiária, disse, será difícil por causa do "ritmo lento" da reforma agrária. "Não acredito em milagres". Reunião - Na terça-feira, MST e Incra formam uma comissão para discutir o cumprimento das reivindicações. O governo prometeu rever o orçamento da reforma agrária e chegar aos R$ 2,2 bilhões do ano passado. Nélson Borges anunciou, ainda, que está sendo estudado um aumento do desconto da nova linha de crédito para a reforma agrária para até 80% do valor do financiamento, em regiões carentes.

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