Governo instala-se no Ulster e inicia "era de paz"
Belfast, 02 (AE-AP) - Pondo fim a 27 anos de total controle britânico, reuniu-se hoje (02) pela primeira vez o gabinete do governo autônomo da Irlanda do Norte (Ulster), com um protestante na presidência e um católico na vice-presidência.
O encontro inédito foi precedido de outros dois eventos não menos históricos, ocorridos em Dublin, capital da República da Irlanda: a assinatura de um tratado entre os governos britânico e irlandês de cooperação com o Ulster e a retirada da Constituição irlandesa de um artigo reclamando soberania sobre os seis condados que compõem o Ulster.
Outro fato aguardado com grande expectiva era a designação dos representantes dos grupos paramilitares protestantes e do católico Exército Republicano Irlandês (IRA) para debater o desarmamento com uma comissão internacional, presidida pelo general canadense John de Chastelain. A entrega das armas deverá ser encerrada em maio de 2000.
Oito dos dez ministros que integram o gabinete norte-irlandês tomaram posse em cerimônia especial no Castelo de Stormont, nas cercanias de Belfast. E, em seguida, participaram de uma breve reunião com o primeiro-ministro David Trimble, líder do protestante Partido Unionista do Ulster (UUP), e o vice-primeiro-ministro Seamus Mallon, líder do católico Partido Social-Democrata e Trabalhista (SDLP).
O encontro foi saudado pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em pronunciamento feito de Downing Street, 10 (residência oficial dos governantes britânicos). "A Irlanda está diante de uma grande oportunidade de tornar a paz uma realidade", disse Blair. "Mas há ainda um longo caminho a ser percorrido."
Segundo o dirigente britânico, os radicais católicos e protestantes "tentarão de todas as formas sabotar o processo".
Para se ter uma idéia das dificuldades a serem enfrentadas por Trimble, dois ministros protestantes, Nigel Dodds (Desenvolvimento Social) e Peter Robinson (Desenvolvimento Regional), boicotaram a primeira reunião do gabinete. Eles integram o Partido Democrático Unionista (DUP), do ultraradical reverendo Ian Pasley.
"Jamais nos sentaremos ao lado de terroristas católicos", disseram eles, referindo-se aos dois representantes do Sinn Fein (braço político do IRA) no gabinete - Martin McGuiness (Educação) e Bairbre de Brun (Previdência Social).
Trimble não comentou a ausência dos ministros. "A partir de agora, o mais importante é representar os norte-irlandeses e assumir nossas responsabilidades", destacou. "Seremos julgados pela História."
Os demais ministérios estão assim distribuídos: Agricultura e Desenvolvimento Rural, Brid Rogers (SDLP); Cultura, Arte e Lazer
Michael McGimpsey (UUP); Indústria, Comércio e Investimento, Reginald Empey (UUP); Meio Ambiente, Sam Foster (UUP); Finanças, Mark Durkan (SDLP); e Educação Superior e Trabalho, Sean Farren (SDLP).
O acordo de cooperação entre Dublin, Londres e Belfast prevê uma série de medidas nos campos econômico, energético e ambiental para desenvolver o Ulster. Blair agradeceu a seu colega da República da Irlanda, Bertie Ahern, por ter eliminado a reivindicação territorial irlandesa sobre o Ulster.
Essa reclamação de Dublin era classificada de "agressão" pelos protestantes norte-irlandeses. O UUP de Trimble, o maior partido político do Ulster, recebeu a notícia como uma vitória. "Hoje é um grande dia para o partido", exultou Ken Maginnes, porta-voz da agremiação.
Em Washington, o presidente norte-americano Bill Clinton elogiou os líderes protestantes e católicos: "Agora é possível acreditar nisto: o dia do fuzil e da bomba terminou de fato."





