São Paulo, 5 (AE)- Com índice de aprovação popular escoando pelo ralo, como demonstra a Pesquisa CNT/Vox Populi divulgada ontem, o presidente FHC iniciou pesada ofensiva política nesta terça-feira - véspera do mais esperado depoimento à CPI dos Bancos na semana. Nesta terça-feira, enquanto o deputado federal Aloízio Mercadante (PT-SP) reafirmava sua disposição de apresentar elementos aos senadores de forma a permitir que as apurações da CPI possam ir além do socorro financeiro dispensado pelo Banco Central aos bancos Marka e FonteCindam, o mercado tentava administrar os efeitos de boatos de novas denúncias sobre ganhos com a mudança cambial que poderiam afetar diretamente o governo, e o Presidente da República dava tratos à bola.
Ao longo do dia, o presidente FHC definiu com o PFL uma pauta de trabalhos para as próximas semanas, procurando assegurar que o Congresso apresse as votações de reformas de caráter fiscal; agendou para a noite um encontro com a bancada do próprio partido, o PSDB, no Senado; anunciou que promoverá em breve a troca das lideranças do governo no Congresso e no Senado; e acenou para hoje a divulgação de medidas de ajuda aos governos estaduais. Com esta batelada de informações em processamento - possivelmente com desova hoje - o governo poderá travar uma grande disputa com a CPI dos Bancos pela manchete dos principais jornais do País na manhã da quinta-feira.
A tentativa é legítima, mas o momento é complicado e nada garante que o governo será bem sucedido na rotineira estratégia de minimizar o impacto de notícias negativas com fatos positivos que agradem brasileiros e investidores estrangeiros.
Persistem dúvidas quanto à capacidade de o governo agradar a todos no momento, primeiro porque a maioria da população brasileira - 64% da amostra da Pesquisa CNT/Vox Populi - considera a CPI dos bancos positiva, ainda que para muitos ela tenha potencial para agravar a crise que o País atravessa; segundo, porque os investidores estrangeiros não estão atentos apenas aos desdobramentos da CPI, mas, sobretudo, nas indicações de que o governo brasileiro é capaz de atender os compromissos de ajuste fiscal de efeito prolongado e que foram formalizados no memorando técnico de entendimentos com o Fundo Monetário Internacional (FMI); terceiro, porque além dos investidores externos, o governo tem na mira o próprio FMI.
Fundo, que emprestou um dinheirão ao País e certamente influenciou a decisão de quase duas dezenas de bancos centrais de países industrializados, vem emitindo sin ais de que a economia brasileira reage rápida e positivamente, mas também vem alertando que o governo não pode deixar de promover reformas estruturais, sobretudo, na área fiscal. Sinal cristalino de que o equipe econômica sabe dos riscos que corre foi dado pelo ministro do Orçamento e Gestão Pedro Parente em entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S.Paulo no último domingo. Parente indicou que o Brasil certamente confirmará os "critérios de desempenho" sobre as contas públicas firmados junto ao FMI, mas alertou que esses resultados ainda não autorizam comemorações. Embora menos explícito, o secretário de Planejamento e Política Econômica do Ministério da Fazenda Edward Amadeo seguiu esta mesma receita ontem.
Conforme relata a jornalista Nélia Marquez, o secretário lembrou que as metas para o segundo trimestre estão dadas, mas reconheceu que, a exemplo do que ocorreu no primeiro trimestre do ano, neste segundo trimestre o governo ainda terá suas contas favorecidas por receitas episódicas - como antecipação de recursos referentes à privatização do Sistema Telebrás e pagamento de dívidas do setor privado. O governo não pode desprezar as tais "receitas episódicas", mas elas não comovem e tampouco dão segurança aos investidores externos com cacife para bancar injeções de capital de longo prazo no País.
O ingresso de investimentos diretos - que o Banco Central estima em cerca de US$ 20 bilhões neste ano e suficiente para financiar o déficit em transações correntes - não depende necessariamente das perspectivas das políticas de comércio exterior ou fiscais, uma vez que parte des ses recursos deve chegar ao Brasil através das privatizações e também como aporte a investimentos físicos iniciados ao longo do primeiro mandato de FHC e que nem sempre podem ser interrompidos. O fato é que o País depende de capitais de curto prazo e o mercado já olha no calendário o final de junho. Nesta data expiram medidas de exceção - entre elas a redução de impostos para ingresso e aplicação de capital estrangeiro em renda fixa - que foram adotadas exatamente para assegurar o fluxo de capitais, ainda que voláteis.
Apesar dos indícios de comemoração, no Planalto, de avanços do Congresso em projetos prioritários - como a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal e a regulamentação da Lei Camata - há consenso de que outras reformas como a tributária e a política estão emperradas num contexto que frustra expectativas de que a aprovação de novas regras poderá satisfazer todos os interessados, e o reconhecimento por parte do mercado de que o governo não tem alternativa a não ser insistir nas reformas. Um dos principais motivos que justificam a torcida do mercado é a corrida do calendário, sem qualquer indicação consistente de que o Brasil está conseguindo ser bem sucedido na geração de caixa em dólar, através de superávits comerciais.
Ao contrário, as expectativas são de que o resultado da balança comercial em abril foi discretamente positivo, alterando muito pouco o expressivo déficit acumulado no ano. Esta dificuldade que o Brasil enfrenta, apesar da maxidesvalorização do real, cria embaraços e começa a provocar impacto em todos os segmentos do mercado financeiro. Ontem, operadores creditavam parcialmente a alta do dólar à perspectiva de que o saldo comercial em abril será medíocre, o que poderia levar as autoridades monetárias a inibir maior valorização do real. A mesma justificativa - dificuldade de o Brasil produzir dólares - era aplicada aos juros, que estariam resistindo a novas quedas mais acentuadas, dada à necessidade de capital estrangeiro de curto prazo para bancar amortizações de um elevado endividamento externo.
Juro alto por tempo prolongado ou em queda muito lenta desorienta, por outro lado, as bolsas de valores que não estão tendo os principais índices deprimidos por vendas de investidores estrangeiros, mas tampouco estão escalando novos patamares alimentadas por novas ordens de compra. Fato é, que o Brasil tem metas acertadas com o FMI até o final de junho e novos parâmetros - para o segundo semestre e o ano 2000 - dependerão notadamente do esforço fiscal a ser empreendido, dada à combalida balança comercial. É sobre isso que o mercado anda meditando, sempre que a CPI dos Bancos dá alguma trégua. Este certamente não será o caso hoje, considerando o elevado grau de inquietação de instituições e investidores que tentavam calcular
ontem à tarde, até onde estaria embutido nos preços das ações o eventual levantamento de novas denúncias contra bancos que teriam obtido lucros ext raordinários com mudanças de posição durante a mudança do regime cambial em janeiro.
Por mais que o deputado Aloízio Mercadante tenha procurado abrandar as expectativas com o seu depoimento à CPI elas são grandes. O mercado encerrou o expediente ontem no início da noite convencido de que o deputado petista dificilmente bancará um depoimento "vazio" aos senadores, desprezando uma oportunidade ímpar de colocar a oposição frente a frente com o sistema bancário - alvo histórico de inúmeras críticas.

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