Governo incentivou ocupação desordenada
Apesar de toda a divulgação pela imprensa e das orações feitas em favor da fauna e da flora em perigo, a situação das cidades do Amazonas recebe pouca atenção - e quase não tem defensores. Não há nenhum Chico Mendes do asfalto. Todos falam nos incêndios e no desflorestamento, observa Antonio dos Santos, ecologista da Universidade do Amazonas, em Manaus. As pessoas mal sabem da existência do Amazonas urbano.
Mas é cada vez mais difícil ignorá-lo. Nas últimas duas décadas a urbanização do Amazonas processou-se quase com o dobro da rapidez registrada no resto do país - e com pouco planejamento e controle. Hoje o destino de um entre cada 10 migrantes do Brasil é alguma área do Amazonas. Alguns deles são agricultores e criadores de gado que não conseguiram ganhar a vida nos solos esgotados de florestas tropicais; outros são recém-chegados que foram forçados a deixar fazendas ou fábricas em partes distantes do Brasil. Outros, ainda, são pessoas em busca de um teto, de emprego, ou da promessa de uma vida mais simples. Nem todos vão para Manaus, cuja população aumentou de 30 mil pessoas na virada do século para 1,2 milhões atualmente. Em Belém, que já foi um pequeno porto na foz do Rio Amazonas, atualmente vivem 1,2 milhão de pessoas. E outras duas cidades da Bacia Amazônica incluem-se entre as de crescimento mais rápido do Brasil: Macapá, que está se expandindo na proporção de 7,1% ao ano, e Palmas, que cresce à surpreendente velocidade de 28% ao ano.
Ironicamente, grande parte desse crescimento descontrolado foi inspirado, até encorajado, por governos de Brasília. Como o Oeste americano, a Amazônia é vista, desde há muito tempo, como o palco onde o destino manifesto do Brasil será interpretado. Os governos militares da década de 60 e de 70 até converteram isso em um brado oficial de batalha: Integrar para não entregar, ou seja, tomemos o Amazonas para que estrangeiros não possam tomá-lo. Com incentivos especiais, eles encorajaram centenas de milhares de pessoas a se transferir para a região da floresta, uma das maiores migrações do mundo registradas neste século. Os pioneiros causaram impacto imediato: 80% dos 517 mil km2 de floresta tropical foram destruídos nas últimas três décadas. De 1995 a 1997, mais de 60 mil km2 (uma área do tamanho da Suíça) de florestas tropicais foram incendiadas, ou tiveram suas árvores derrubadas. E o mundo ficou observando, no mês passado, enquanto incêndios florestais ateados por homens - e intensificados pelas condições de seca exacerbadas por El Ni¤o - devastaram uma ampla área de florestas tropicais no Brasil, Guiana e Venezuela.
Mas quem está observando o desastre que vem ocorrendo nas cidades do Amazonas? Em 1991, quando foi realizado o último censo completo, os pesquisadores descobriram que em 40% das casas urbanas não havia água corrente; em 88% não havia canos de esgotos e em 50% não havia serviço de coleta de lixo; Essas porcentagens correspondem a mais do dobro da média nacional. O analfabetismo no Amazonas é 25% superior ao do país como um todo - o que não deve causar surpresa: 25% das crianças em idade escolar passam os dias trabalhando em vez de ir à escola. Manaus orgulha-se da Zona Franca, um brilhante parque industrial que produz motocicletas, aparelhos de TV e outros eletrodomésticos. Mas as ruas estão repletas de desempregados, que, em conjunto, representam cerca de dois terços da população. O ecologista dos Santos descobriu, em um estudo recente, que foi devastada uma parte tão grande da vegetação em torno de Manaus que a quantidade de chuvas diminuiu de forma mensurável, neste século, enquanto a média de temperatura subiu de 27ºC para 30ºC. Fato ainda mais grave, o estudo mostrou que virtualmente todas as correntezas que drenam a cidade estão muito prejudicadas pela erosão, lixo e material de esgoto sem tratamento. Quando eu era criança costumava pescar nestas águas, recorda Santos. Eu digo aos meus amigos que vivemos a última era romântica da cidade. Manaus é o caos, agora.
Um homem que tenta encontrar o seu caminho em meio ao caos é Elias Junior da Costa, comerciante robusto, de 44 anos, que estava sentado na ponte de atracação de madeira de Manaus, aguardando um barco que o levaria, juntamente com a família, para uma nova vida rio abaixo. Como muitos outros pioneiros, Costa veio ao Amazonas há 26 anos, em busca de fortuna e aventura. Ele encontrou um pouco das duas coisas, mas acabou perdendo quase tudo, primeiro como vendedor de gado e mais recentemente como marreteiro que vendia produtos enlatados e aparelhos eletrônicos nas calçadas de Manaus. Ninguém quer contratar um trabalhador que só sabe assinar seu nome, enfatizou. Os pertences de Costa - malas, caixas de papelão, sacolas de plástico e um aparelho de TV de 19 - agora estão no convés de um barco movido a diesel, de dois andares. Sua mulher, alguns parentes e o filho estão descansando em redes de tecido de algodão. Mas Costa, com seu boné Bob Marley e seu sorriso banguela, está ocupando pensando no lugar para onde se dirige. Quando garoto, eu sonhava com o Amazonas, um lugar bonito, todo verde e repleto de cobras grandes. E ainda sonho. Aqui é o meu lar.
Vistas da janela de um avião a jato, as cidades do Amazonas parecem uma mancha distante em um tapete verde estampado. Mais perto do chão, pode-se ter uma idéia mais clara do drama. Até cidades menores como Rio Branco, capital do Estado do Acre, densamente florestado, situado no Oeste da Amazônia, escaparam ao controle. O bispo Moacyr Grechi chegou a Rio Branco há 26 anos, quando havia 40 mil habitantes na sonolenta cidade situada à beira rio. Mas a população aumentou para 250 mil pessoas e quase todos os edifícios da cidade, inclusive a catedral, são protegidos por portões e guardas. A catedral foi invadida 20 vezes, explica Grechi, para quem a cidade se tornou incontrolável. O centro da cidade é cercado por 40 favelas, e a inexorável propagação do crime, da poluição, desemprego, e de doenças dá origem a manchetes dignas das cidades mais duras. Vigilantes aterrorizam bairro, dizia uma. Empresário paga resgate para não morrer, anunciava outra. Jorge Viana, ex-prefeito de Rio Branco, não vê soluçao imediata para o problema. Ninguém sabe o que fazer com tantas pessoas, enfatiza. É como se estivéssemos em meio a uma guerra urbana. (Nesweek)





