Porto Alegre, 20 (AE) - A Companhia Estadual de Energia Elétrica (Ceee) do Rio Grande do Sul está desenvolvendo um amplo programa de reestruturação operacional e financeiro para reequilibrar o caixa e eliminar um déficit mensal de cerca de R$ 25,5 milhões mensais. A estratégia inclui ações convencionais como alongamento de dívidas, expansão de serviços e ingresso em novos segmentos, e providências já não tão usuais, aí incluídas a "reverticalização" da empresa, redução dos níveis de terceirização e o aumento do quadro funcional.
Desde que o atual governo gaúcho assumiu o controle da estatal, a Ceee já conseguiu reduzir em 12,62% o déficit mensal de caixa, destaca o diretor financeiro Antônio Fraga Machado. O avanço, porém, ainda não foi suficiente para ajustar a empresa, que encerrou o primeiro semestre deste ano com um prejuízo de R$ 95,4 milhões apesar do crescimento de 6% na receita operacional, que passou para R$ 502 milhões.
Conforme o executivo, a companhia foi duramente atingida pela desvalorização do real, já que 40% da energia comprada do sistema interligado nacional para suprir a insuficiência de geração interna vêm de Itaipu, atrelados ao dólar. No total, os gastos com aquisição de energia durante o primeiro semestre alcançaram quase R$ 140 milhões, contra R$ 95 milhões em igual período do ano passado. As despesas financeiras somaram perto de R$ 245 milhões, 94% acima do primeiro semestre de 1998. Deste total, R$ 187 milhões foram gerados pela variação monetária, explicou Machado.
De acordo com ele, o endividamento financeiro da empresa é da ordem de R$ 1 bilhão, 50% em moeda estrangeira e a maior parte concentrada num período de quatro anos. Machado explicou que, afora o endividamento, o problema mais grave da empresa é o passivo trabalhista remanescente da privatização. O valor provisionado já supera os R$ 360 milhões e está "crescendo", revelou o diretor. "Pretendemos fazer com que isso não inviabilize a companhia".
Entre as hipóteses em estudo para solucionar o problema estão a renegociação das ações trabalhistas com os reclamantes, a revisão das estratégias de defesa nos tribunais e a adoção de medidas preventivas para evitar novos problemas. Segundo ele, a situação é grave e desde que a nova direção assumiu a Ceee, a média mensal de depósitos judiciais decorrentes de reclamatórias aumentou 56%, atingindo R$ 11,2 milhões.
Pelo lado das receitas, a Ceee lançou, há três meses, um programa para a recuperação de créditos históricos em atraso que totalizam cerca de R$ 350 milhões. A primeira renegociação de grande porte foi recentemente fechada com outra estatal, a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), que deve R$ 43 milhões à empresa. Além de buscar um número maior de consumidores - hoje são 1,146 milhão - e a redução das perdas de energia via expansão e melhorias nas redes de distribuição, a empresa também está se preparando para operar na área de transmissão de dados. A atividade foi incorporada aos estatutos este ano e vai utilizar a infra-estrutura já existente. A secretária de Energia, Minas e Comunicações do governo, Dilma Rousseff, já disse que o novo segmento poderá aumentar em 40% o faturamento da Ceee num prazo de dois anos.
Segundo Machado, a estatal tem hoje pouco menos de 2 mil funcionários ativos e cerca de 4 mil inativos. Ele afirmou que existe defasagem de pessoal em "todas as áreas" da empresa, em níveis ainda não apurados. O problema deverá ser solucionado mediante abertura de concurso público para o preenchimento das vagas e não mediante a terceirização, que causou resultados "nefastos" nos últimos anos.
O novo modelo de gestão que está sendo implantado inclui ainda o restabelecimento da estrutura verticalizada, com integração plena entre as áreas de geração, transmissão e distribuição. "Recebemos a empresa dividida e pronta para a privatização", afirmou. "Agora estamos padronizando os procedimentos internos".
A Ceee opera nos segmentos de geração hídrica, transmissão e distribuição em 68 municípios das regiões sul-sudeste do Estado. A distribuição nas áreas centro-oeste e norte-nordeste foi privatizada e está sob controle das empresas AES Sul e RGE, enquanto a geração térmica foi transferida à União. O modelo de privatização parcial implementado na gestão passada já foi criticado pelo atual governo, pois a parte estatal perdeu a maior parcela das receitas e ficou com 80% dos passivos originais.

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