Rio, 23 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, revelou hoje que o governo estuda o retorno do expurgo no cálculo da taxa de inflação, que serve de referência para o sistema de metas adotado este ano. A criação de um novo índice de preço só é cogitada para "daqui a uns cinco anos", quando o novo modelo já tiver credibilidade junto aos agentes financeiros. O ministro destacou que a maioria dos países que adotaram o sistema de metas expurgaram o impacto da sazonalidade ou de alguns itens, como petróleo e hortifrutigranjeiros, que têm grande oscilação de preços. A alta do preço do petróleo no mercado internacional desde o início do ano, por exemplo, vem pressionando os índices de inflação no Brasil.
"Não absorvemos essa alta com subsídios porque a conta teria de ser paga de qualquer maneira pela sociedade no futuro"
afirmou Malan. O ministro chamou esse período de alta de um "choque do petróleo, guardadas as devidas proporções".
A desconfiança do mercado foi o fator decisivo para que o governo optasse por não adotar o expurgo no lançamento do sistema de metas, em junho deste ano "Teríamos um grande problema de credibilidade se falássemos que iríamos criar um novo índice do qual seriam expurgadas algumas coisas", avaliou o ministro durante um seminário na Fundação Getúlio Vargas (FGV). "A história passada do Brasil, infelizmente, sugere que o governo talvez pudesse manipular o índice", admitiu.
Para evitar esse tipo de problema, Malan afirmou que o governo já convidou economistas como os ex-presidentes do Banco Central Affonso Celso Pastore e Gustavo Loyola para constituírem um conselho que terá como tarefa dar transparência ao novo índice. "Espero que caminhemos nessa direção breve." O papel da taxa será substituir o atual Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como balizador do sistema de metas.
O IPCA é calculado com base na variação do custo de vida das famílias com renda entre um e 40 salários mínimos. Apurado nacionalmente, este foi o índice escolhido pelo governo para servir de referência oficial de inflação. Esta taxa mede apenas os efeitos das oscilações de preço para o consumidor.
O diretor de Política Econômica do Banco Central, Sérgio Werlang, explicou que a mudança do modelo só poderá ser realizada a partir de 2002. Ele lembrou que o governo já fixou metas de inflação em relação ao IPCA até 2001 que não podem ser alteradas. "Ainda não existe nada de concreto", desconversou o diretor. "O que existe é a possibilidade de o governo alterar o modelo atual quando forem divulgadas as novas metas para o período a partir de 2002." O decreto criando o novo sistema de metas permite alterações desde que sejam anunciadas com antecedência pelo governo. Ele explicou que, se houver mudanças no curto prazo, elas serão reveladas em junho do próximo ano, quando forem anunciadas as metas para 2002. Até lá, o diretor do BC frisou que não há a possibilidade de modificações no atual modelo de inflação.
Malan, que não quis dar entrevistas, reclamou durante sua palestra da visão de curto prazo do mercado financeiro em relação à inflação. "A intenção não é prever a taxa da quadrissemana, quinzena ou do mês", ponderou. "O importante é a direção em que se pretende caminhar para atingir a inflação futura". O ministro explicou ainda que a adoção do sistema não teve como objetivo prever a taxa, mas indicar o alvo que o governo está mirando para os próximos anos.
O sistema de metas permite uma margem de ajuste de dois pontos percentuais, para cima ou para baixo. Neste ano, por exemplo, em que a meta foi fixada em 8%, o governo aceitará qualquer índice entre 6% e 10%. O intervalo significativo, explicou Werlang, é justamente para cobrir choques de preços, já que o governo não faz expurgos. Caso a meta não seja cumprida em um determinado ano, o Banco Central soltará uma carta aberta explicando o porquê.

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