Governo estabelece protocolo para casos de intoxicação por metanol
Estado de São Paulo registrou dez casos de intoxicação e três óbitos após consumo de bebida alcoólica adulterada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de setembro de 2025
Estado de São Paulo registrou dez casos de intoxicação e três óbitos após consumo de bebida alcoólica adulterada
Agência Brasil 

O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) vai emitir alertas aos Procons de todo o país com orientações a fornecedores e consumidores sobre a segurança na comercialização e no consumo de bebidas alcoólicas. A medida foi anunciada como resposta aos casos de intoxicação por metanol detectados nos últimos dias no estado de São Paulo.
Em reunião extraordinária do Comitê Técnico do SAR (Sistema de Alerta Rápido), do Governo Federal, na tarde de segunda-feira (29), foi confirmado o décimo caso de intoxicação por metanol relacionado ao consumo de bebida alcoólica no estado vizinho. Até a tarde desta terça-feira (30), três óbitos haviam sido confirmados.
O encontro foi coordenado pela Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas) do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Outras pastas estão envolvidos na investigação. O Ministério da Agricultura e Pecuária está levantando informações para avaliar eventuais ações de fiscalização e o Ministério da Saúde orienta que todas as unidades de saúde, em especial a rede de urgência e emergência, sigam o protocolo de notificação para casos suspeitos de intoxicação exógena (com agente tóxico de origem externa).
Mudança no padrão
“Os casos apresentam padrão inédito e diverso aos que eram, até então, registrados. As ocorrências de intoxicação por metanol estavam, majoritariamente, associadas a pessoas em extrema vulnerabilidade ou população em situação de rua, ambos a partir de ingestão de álcool em postos de gasolina adulterados com a substância”, informou a nota emitida pelo Ministério da Justiça.
“No entanto, a partir do início do mês de setembro, em um curto intervalo de tempo, os pacientes intoxicados apresentaram histórico de ingestão recente de bebidas alcoólicas destiladas em cenas sociais de consumo alcoólico, incluindo bares, e com diferentes tipos de bebida, como gin, whisky, vodka, entre outros”, completou o texto.
Diante do caráter inédito da situação, o ministério alertou para a possibilidade de existirem casos ainda não notificados, além de casos que seguem sob investigação ou que aguardam confirmação laboratorial.
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Inquérito policial
Nesta terça-feira (30), o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que já foi instaurado inquérito policial para investigar as circunstâncias envolvendo os casos de intoxicação por metanol identificados no estado de São Paulo. Segundo ele, a corporação investiga, inclusive, a ligação da adulteração de bebidas alcoólicas com o crime organizado.
“Dentre as razões, a questão da interestadualidade [há indícios de distribuição fora do estado de São Paulo] e a possível conexão com investigações recentes que fizemos, especialmente no estado do Paraná, com outras duas de São Paulo, em razão de toda a cadeia de combustível, onde parte disso passa pela importação de metanol pelo Porto de Paranaguá”, explicou.
O diretor da PF disse que a investigação dirá se há conexão com o crime organizado baseado em operações anteriores, e que o trabalho será integrado com a Polícia Civil de São Paulo.
“A gente vai buscar trabalhar de maneira integrada. São investigações que se complementam com investigações na parte administrativa, com investigação a cargo também da Polícia Civil de São Paulo”, disse.
Emergência
A intoxicação por metanol caracteriza emergência médica de extrema gravidade. A substância, quando ingerida, é metabolizada no organismo em produtos tóxicos (como formaldeído e ácido fórmico), que podem levar ao óbito.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, detalhou nesta terça-feira (30) os principais sinais e sintomas de intoxicação por metanol. Na grande maioria dos casos, segundo ele, o primeiro sintoma a aparecer é uma forte dor, seguido de alterações na visão. Os sinais podem demorar até 24 horas para aparecer.
“Uma dor muito diferente, porque é uma dor em cólica. As pessoas, às vezes, quando fazem ingestão de bebida alcoólica sentem uma queimação, falam que estão com azia, aquela coisa da ressaca. Não é queimação, não é azia. Pode até ter isso também. Mas a dor em cólica é algo que chama muito a atenção nesses casos”, salientou.
Em segundo lugar, o ministro citou qualquer percepção de alteração visual. “O metanol vem pelo estômago, vai para o intestino, é absorvido para o fígado e, no fígado, é digerido e metabolizado. Saem dali substâncias como ácido fórmico e formaldeído, que são extremamente nocivas ao sistema nervoso central”.
De acordo com o ministro, são essas substâncias que agridem o sistema nervoso central e afetam a visão, pois atingem o nervo ótico.
“Por isso, as pessoas começam a perceber, às vezes, algum tipo de alteração visual. Começam a ver luzes, flashes e há até o risco de perda visual. Isso acontece de imediato? Não, não acontece de imediato”, completou.
Hidratação
Padilha alertou ainda que os sinais e sintomas da intoxicação por metanol podem demorar até 24 horas para se manifestarem. O tempo de reação vai depender do nível de hidratação e do consumo de alimentos por parte da pessoa afetada pela condição. “Sentiu 12 horas depois? Pode ser intoxicação por metanol. Sentiu 24 horas depois? Pode ser intoxicação por metanol”.
“Se você estiver bem hidratado, pode estar eliminando mais rápido pela urina. Por isso é tão importante, quando começar a sentir os primeiros sinais e sintomas, a hidratação. Para proteger o rim”, explicou.
Por fim, o ministro pediu atenção por parte da população – sobretudo em casos onde houve o consumo de bebidas alcoólicas de origem desconhecida. “Na medida em que começarem esses sinais e sintomas, procure os serviços de saúde. Não vá fazer qualquer medida por conta própria, não vá achar que tem algo milagroso para uma desintoxicação, qualquer tipo de lavagem”.
Agilidade no atendimento
Padilha ressaltou que os serviços especializados em intoxicação contam com o antídoto para o metanol, por isso é importante buscar rapidamente o atendimento.
“Procure um serviço de saúde que ele vai ter a preocupação de te manter hidratado a níveis elevados e monitorar, dependendo da gravidade”, disse. “A gente tem o etanol específico para antídoto do metanol, registrado aqui no Brasil. Os serviços especializados de intoxicação têm e sabem o manejo desse produto”, concluiu.
Em caso de identificação dos sintomas, a orientação do governo federal é buscar imediatamente um serviço de emergência médica e contatar o Disque-Intoxicação da Anvisa: 0800 722 6001.
Estabelecimentos confiáveis
O CFM (Conselho Federal de Medicina) divulgou nesta terça-feira (30) um posicionamento em que cobra reforço na fiscalização para combater os esquemas de falsificação de bebidas alcoólicas. O presidente do CFM, José Hiram Gallo, lembrou que esses produtos "geram riscos de adoecimento, sequelas e mortes".
A entidade orientou a população que, em caso de consumo de bebidas alcoólicas, compre sempre produtos em estabelecimentos confiáveis e recuse produtos que estejam com lacre violado ou tenham rótulos com erros de impressão e sem dados, como CNPJ, número de lote e data de validade.




