Brasília, 15 (AE) - Apesar de esforços de ambas as partes, não houve acordo entre o governo e a bancada ruralista na Câmara para a votação do recurso contra o parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que considerou inconstitucional o substitutivo da comissão de agricultura para a renegociação da dívida dos ruralistas, com abatimento de 40% dos débitos. O governo queria que a bancada ruralista retirasse o recurso da pauta para evitar um confronto direto e desgastante no plenário. Houve inversão de pauta às 18 horas, empurrando a votação do recurso, na expectativa do governo de um quórum de pelo menos 480 deputados.
Antes da votação, enquanto os líderes da bancada ruralista contavam que seria formado um grupo de trabalho para estudar as propostas sobre o endividamento - qualquer que fosse o resultado -, o discurso era diferente do lado do governo. "Ainda estamos discutindo se vai ou não existir esse grupo de trabalho", afirmou o líder do governo na Câmara, horas antes da votação no plenário.
Durante todo o dia, representantes dos ruralistas e o líder do governo fizeram pelo menos três reuniões a portas fechadas. Houve deputados da bancada ruralista, que não quiseram se identificar, afirmando que nas reuniões houve promessas de que não haveria "retaliação" aos governistas que votassem contra o governo e também que haveria liberação de verbas para emendas ao orçamento. "Desafio qualquer um a assumir que houve alguma promessa", reagiu Madeira. "O que se está discutindo é a formação de um grupo de trabalho, nada mais".
A movimentação da bancada ruralista na Câmara - que segundo medição feita no ano passado pelo Departamento de Assessoria Parlamentar (Diap) alcança quase 250 deputados - começou em meados de agosto. O ápice da movimentação veio no dia 24 de agosto, quando milhares de produtores rurais estacionaram na Esplanada dos Ministérios como forma frustrada de pressionar a votação do perdão de suas dívidas. O "caminhonaço" foi embora e o governo acabou acenando com várias alternativas, consideradas "paliativos" pelos ruralistas e, por isso, rechaçadas em vista da luta pela aprovação do parecer da comissão de agricultura.
Antes da votação, os deputados ruralistas distribuíram panfletos: "Não seja inimigo da agricultura e vote a favor da solução do endividamento rural". As instruções seguintes eram didáticas, informando que a 1ª votação seria do recurso contra o parecer da CCJ, "diga sim ao recurso", e depois a votação do parecer da CCJ, "diga não ao parecer".
Em terceiro seria o parecer da comissão de finanças, que seria dado em plenário: "diga sim ao parecer se for favorável e não se não for favorável". A 4ª votação seria a crucial para o governo, a do substitutivo da comissão de agricultura: "diga sim ao substitutivo", escreveram os ruralistas no panfleto.
Pouco antes do início da sessão, governistas apostavam que apenas a primeira votação seria realizada, qualquer que fosse o resultado. A votação do recurso ficou adiada por quase um mês - desde o "caminhonaço" -, por conta do receio do governo em perder no voto. Na terça-feira a pauta foi desobstruída, com a esperança do governo de que sua base de sustentação rejeitasse o recurso, evitando assim o desgaste que nasceria com o veto ao projeto da comissão de agricultura, prometido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Durante todo o dia, a bancada ruralista se movimentou para tentar ainda arregimentar votos para seus interesses. Do outro lado, o governo tentava o contrário. Contudo, só os ruralistas arriscaram números expressivos no placar eletrônico. Madeira, antes da votação, não quis arriscar um placar, apesar de afirmar que "não tinha dúvidas" da vitória do governo.
Já o líder da bancada ruralista, Ronaldo Caiado (PFL-GO)
apostava que a votação será apartidária e "marcante". "Os parlamentares estarão dando votos ideológicos, votando contra ou a favor da agricultura", disse. Nas suas projeções, a bancada ruralista contaria com até 70% dos votos hoje.
Também antes da votação o líder do partido da base governista com a maior fatia da bancada ruralista, o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), afirmava que, caso a votação fosse contra as expectativas governistas, iria "surpreendê-lo". "A maioria acompanhará a decisão já tomada pela CCJ", afirmou. "Vou me surpreender muitíssimo se for o contrário". O deputado considerou que o período sem votações foi fundamental para "apagar o fogo" em torno do tema.

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