Governo e Igreja firmam acordo para combater a aids
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segunda-feira, 02 de agosto de 1999
Por Chico Araújo, especial para a AE 
Brasília, 03 (AE) - A Igreja Católica fará um combate ostensivo à aids por meio de campanhas educacionais e de prevenção nas camadas mais pobres da população, priorizando adolescentes, usuários de drogas e mulheres. Para isso, a Igreja receberá ainda este ano US$ 941 mil (R$ 1,722 milhão na cotação de hoje) do Ministério da Saúde para tocar 20 projetos nessa área em parceria com 15 organizações não-governamentais (ONGs) católicas. O repasse está previsto num acordo firmado hoje entre o ministério e a Pastoral da Saúde, órgão da Conferência Nacional do Bispo do Brasil (CNBB) que cuidará da campanha de prevenção da aids.
A Igreja criou em maio deste ano a Comissão de DST/Aids. O acordo fechado pelo Ministério da Saúde com a Pastoral da Saúde prevê o repasse de recursos para manutenção de casas de apoio aos doentes e programas que dão assistência aos usuários de drogas, mulheres, famílias dos portadores, adolescentes e pessoas de baixa renda. Com esse trabalho, o ministério e a Igreja esperam atingir o maior número de pessoas nas camadas mais pobres da população.
O ministro da Saúde, José Serra, quer com a ajuda da Igreja despertar nas pessoas o sentimento da solidariedade. "Nessa luta de combate à aids, se não houver a solidariedade, não chegaremos a lugar nenhum", reconhece o ministro. Para Serra, a participação da Igreja na campanha de prevenção da aids é de fundamental importância para ajudar a reduzir a incidência da doença no País. Serra preferiu não opinar sobre a condenação da Igreja ao uso do preservativo. Disse ser esse um assunto interno do clero.
"Não vamos deixar de firmar uma cooperação por conta do uso ou não do preservativo", disse. Segundo o ministro, cabe aos católicos discutir sobre o uso de preservativos nas relações sexuais. "Cada um tocará seu trabalho de acordo com aquilo que acha correto", explicou. Medidas - Entre as medidas para reduzir a aids entre os jovens, José Serra defendeu o adiamento do início das relações sexuais entre os adolescentes. Segundo o ministro, hoje no Brasil nascem anualmente 30 mil crianças de relações precoces envolvendo garotas com idades entre 11 e 14 anos. "Isso é uma vergonha para o Brasil", afirmou. A gravidez prematura revela alto índice de mortalidade infantil.
O coordenador nacional da Pastoral da Saúde, padre Evangelista Figueiredo, explicou que a CNBB decidiu firmar o acordo com o Ministério da Saúde para o combate da aids devido ao crescimento da doença. Essa é a primeira vez que a Igreja participa da campanha. Segundo Figueiredo, o trabalho da Igreja daqui para frente será o de reforçar as campanhas de educação e orientação sexual. Ele também disse que a Pastoral da Saúde irá auxiliar o ministério na elaboração das campanhas de rádio e televisão. Comportamento - De acordo com o padre, o uso do preservativo é muito importante para a prevenção da doença, mas não é a solução. Ele entende que a redução dos índices da doença depende de mudanças no comportamento sexual das pessoas. O padre disse que a Pastoral da Saúde fará um estudo sobre as causas do aumento da aids e defenderá na campanha de prevenção da doença um maior respeito aos valores morais.
Já o coordenador da Comissão DST/Aids, irmão Henrique Sá
explica que o trabalho da Igreja será "muito abrangente" para orientar os católicos sobre os perigos da aids. "Vamos falar sobre os valores da família e a importância da abstinência sexual, por exemplo", explica Sá, que é portador do vírus HIV e membro da Irmandade Santíssimo Sacramento da Arquidiocese de Manaus (AM). Sá admite haver muitos soropositivos entre religiosos. Ele garante que não há discriminação a essas pessoas por parte da Igreja.


