São Paulo, 26 (AE) - O ministro Pimenta da Veiga (Comunicações) ligou para o secretário da Segurança Pública do Distrito Federal, Paulo Castelo Branco às 17 horas. A Presidência da República estava ansiosa em saber, afinal, quantos manifestantes participaram da anunciada Marcha dos Cem Mil sobre Brasília. Pelo celular, Castelo Branco leu um "relatório de avaliação" com dados numéricos surpreendentemente precisos. Segundo o secretário, 40.030 pessoas compareceram ao ato.
Como a polícia chegou a número tão exato? A matemática do comando da Segurança é singela. Entraram na cidade 1.101 ônibus, de acordo com a contagem oficial. Média de pessoas em cada veículo: 30. "Público estimado", segundo o documento oficial: 33.030. Soma-se a esse contingente "outros 7 mil participantes" - uma referência a servidores públicos do Distrito Federal que engrossaram a marcha.
"Não sou técnico em número de pessoas mas a nossa estimativa é razoável", declarou o secretário Castelo Branco ao ser questionado sobre os critérios adotados para calcular a quantidade de pessoas que marcharam sobre a Capital do País. Não houve manipulação? "Não existe a menor possibilidade", rebateu o secretário. "Não teríamos motivo para fazer uma coisa dessas", reforçou o diretor-geral da Polícia Civil, delegado Laerte Bessa.
Bem-humorado, o secretário avisou: "Na próxima manifestação vou distribuir cartões de identificação e todos vão passar por uma roleta". Ao lado de Castelo Branco estava o coronel Antonio Ribeiro da Cunha, comandante-geral da Polícia Militar no Distrito Federal. Durante a manifestação, pelo celular, o coronel fez avaliações bem diferentes das que constam do relatório divulgado pela secretaria. Por volta do meio-dia, o coronel conversou com o comandante da Polícia Militar de Goiás. "São mais de 80 mil pessoas", afirmou Ribeiro. Pouco depois, o coronel falou com o chede da Casa Militar do governo Joaquim Roriz: "Têm 60 mil pessoas", informou Ribeiro.
À tarde, o comandante-geral dissimulou: "Agora é com o secretário da Segurança". Para Castelo Branco, "seria muito melhor que a manifestação tivesse 1 milhão de manifestantes porque ficou demonstrado que a polícia do Distrito Federal trabalha com profissionalismo".
O secretário passou os mesmos números para o governador Roriz e os ministros da Casa Militar (general Alberto Cardoso) e da Justiça (José Carlos Dias). segundo o relatório, houve apenas "uma condução" à 1ª Delegacia de Polícia - foi detido um homem embriagado que se envolveu em briga. O Comando do Corpo de Bombeiros fez 16 atendimentos de manifestantes que passaram mal e foram removidas para hospitais.
O general Cardoso fez questão de destacar o trabalho da polícia. Ele atribuiu o "clima de tranquilidade" a dois fatores: a organização dos manifestantes e o planejamento da PM, "muito bem preparado e executado". O ministro militar disse que a manifestação foi "ordeira", ressaltando a ocorrência de "pequenos deslizes" - uma alusão a um grupo de pessoas que provocou policiais. Manifestantes jogaram-se no espelho dágua em frente ao Congresso e xingaram soldados e oficiais. Com dedo em riste, muitos chamaram os policiais para aderir ao protesto: "O governo está sacaneando vocês", gritavam. Segundo o general Cardoso, "alguns punks" tentaram tumultuar a marcha.
O ministro manteve o presidente Fernando Henrique Cardoso constantemente informado. Às 15h30, quando chegou ao Palácio do Planalto, o presidente recebeu um balanço das ocorrências. O próprio governador Roriz telefonou para Fernando Henrique "Está tudo normal", disse o peemedebista.
O acesso ao Palácio do Alvorada foi interrompido pelas forças policiais logo cedo. "Com a segurança do presidente não se brinca", disse o general Cardoso.

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