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Londrina

Governo dos EUA processa casal brasileiro por manter empregada como escrava

PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de janeiro de 2000

Por PAULO SOTERO, Correspondente
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Washington, 30 (AE) Não são incomuns relatos de abusos contra empregadas domésticas estrangeiras que se mudam para os Estados Unidos acompanhando as famílias para as quais trabalham em seus países de origem.
Mais raro é que esses casos se tornem públicos, como aconteceu na semana passada, quando a promotoria federal do estado de Maryland acusou os brasileiros Margarida e René Bonnetti de tratar sua empregada, Hilda Rosa dos Santos, de 65 anos, como escrava depois que se instalaram em Gaithersburg, um subúrbio de clase médio de Washington, em 1979.
René, um engenheiro, e sua mulher, que tem 46 anos é considerada pela justiça federal americana, podem ser sentenciados a até 20 anos de prisão a se forem condenados pelos três crimes de que são acusados: terem mantido Hilda em sua casa uma imigrante ilegal, terem agido dessa maneira para explorar seu trabalho e obter com isso ganhos financeiros e terem agredido Hilda fisicamente e colocado sua vida em risco.
Em depoimento que prestou na semana passada no tribunal federal de Greenbelt, que virou notícia de primeira página do Washington Post, ontem (29), Hilda contou as humilhações e agressões que sofreu de Margarida Bonnetti. Analfabeta em português e falando com a ajuda de um intéprete, Hilda disse que uma vez sua patroa jogou-lhe sopa quente no rosto e no peito porque não gostou da forma como ela havia feito a sopa.
Em outra ocasião, Margarida arrancou-lhe os cabelos até sangrar por não aprovar a maneira como ela escovara o cachorro da família. Os abusos chegaram ao conhecimento das autoridades em 1998, depois que vizinhos dos Bonnetti levaram Hilda a um hospital para tratar de um tumor do tamanho de uma bola de futebol no estômago e ela foi entrevistada por assistentes sociais.
Segundo o promotor federal Steven M. Dettelbach, os Bonnetti jamais pagaram salário a Hilda e mantinham a geladeira da casa fechada a cadeado para evitar que a empregada comesse a mesma comida da família.
Quando o casal viajava, Hilda pedia roupa e comida aos vizinhos com a ajuda de cartões com frases em inglês escritas por uma de suas poucas amigas.
John C. Maginnis, o advogado dos Bonnetti, disse que o Rene e Margarida trouxeram Hilda para os EUA para ajudá-la, porque ela tinha problemas com sua família no Brasil.
Mas, segundo o advogado, Hilda, que já trabalhava para os Bonnetti no Brasil, revelou-se "uma empregada tão spetacularmente incompetente" nos EUA que o casal teve que reduzir suas tarefas a ponto de deixá-la praticamente sem ter o que fazer.
Maginnis não explicou por que os Bonnetti não levaram Hilda de volta para o Brasil e contrataram outra empregada, ou simplesmente passaram a viver como seus vizinhos e a esmagadora maioria dos americanos, ou seja, sem empregada doméstica.
A ação contra os Bonnetti não é movida por Hilda, mas pelo governo dos EUA através do ministério público federal do estado de Maryland.
Segundo promotores federais ouvidos pelo Post, o governo tem interesse no caso porque ele é ilustrativo da situação de milhares de empregadas domésticas que são trazidas para os EUA por famílias estrangeiras e submetidas a abusos.
Obviamente, há muitas famílias de estrangeiros que tratam suas empregadas com respeito e as incentivam a aproveitar as oportunidades bem maiores de estudo e aprimoramento pessoal que os EUA oferecem.
Mas a relação tradicional patroa-empregada doméstica, que é difícil mesmo nos países que têm um enorme contingente de mão de obra não qualificada e barata, como o Brasil, raramente sobrevive numa sociedade mais igualitária como bem remunerado.
Uma diarista chega a ganhar US$ 3 mil brutos por mês limpando duas casas por dia, a US$ 75 por cinco a seis horas detrabalho.
Um dos abusos mais comuns que as famílias estrangeiras cometem com suas empregadas nos EUA é negar-lhes acesso a seus passaportes, paraimpedir que elas deixem a casa para ir trabalhar para famílias de americanos ricos ou de classe média alta, que se dispõem a patrocinar-lhes vistos de trabalho, pagam salários de mercado e a seguridade social prevista na lei e tendem a manter uma relação menos pessoal e mais profissional com as empregadas.