Porto Alegre, 10 (AE) - Sem recursos, o governo do Rio Grande do Sul fez várias propostas à Ford do Brasil para renegociar o contrato original e manter os planos de instalação de uma montadora de veículos em Guaíba/RS, chegando até, em uma delas, a sugerir a troca de um empréstimo favorecido por cotas na unidade gaúcha da multinacional norte-americana.
Excluindo-se os incentivos fiscais, o Estado teria de emprestar R$ 210 milhões à Ford e ainda custear obras públicas e privadas para a empresa (mais R$ 234 milhões), em um total de R$ 444 milhões, a serem desembolsados em 18 meses. Depois de vários meses de tratativas no ano passado, não houve acerto e a Ford, beneficiada pela prorrogação do Regime Automotivo para o Nordeste, foi para a Bahia.
"A idéia das cotas foi apresentada conceitualmente e, como foi rejeitada também conceitualmente, não houve detalhamento", confirmou hoje o coordenador de instituição do complexo industrial da Secretaria de Desenvolvimento e Assuntos Internacionais/RS (Sedai), Marcelo Lucca.
Pelo acordo com o governo anterior, de Antonio Britto (PMDB), a Ford receberia um empréstimo de R$ 210 milhões em condições excepcionais - sem correção monetária, juros anuais de apenas 6% , com 15 anos para pagar, sendo cinco de carência.
Lucca explicou que a proposta das cotas - parecida com o que ocorreu com a Fiat, em Minas Gerais, e a Renault, no Paraná - seria uma maneira de o governo gaúcho obter maior garantia e valorização para o seu capital. Ele notou que, em 17 de junho, ao depor na CPI do Pólo Automotivo, da Assembléia Legislativa/RS
o secretário José Carlos Vianna Moraes, da Sedai, citou a proposta rejeitada. E, em setembro, na mesma CPI, o então presidente da Ford do Brasil, Ivan Fonseca e Silva, corroborou a informação.
Participante das seis reuniões que houve na Sedai com dirigentes da Ford do Brasil, Lucca assegurou que, em praticamente todas, o Estado sugeriu alterações no contrato que tornassem suportáveis as obrigações atribuídas ao Rio Grande do Sul. O maior problema era o desembolso imediato do dinheiro. O Estado, que gasta 95% do que arrecada com dois itens, o pagamento do funcionalismo e as mensalidades da dívida com a União, não teria como manter as vantagens para a montadora.
"Levantamos várias hipóteses, como a ampliação do empréstimo da Ford no BNDES, que passaria de R$ 550 milhões para R$ 700 milhões, com o governo estadual também intercedendo", descreveu.
Alternativas - Outras alternativas seriam a redução de obras públicas e privadas - uma das previstas era um porto, que consumiria R$ 31,1 milhões -, a serem bancadas pelos cofres públicos no terreno adquirido para a futura montadora; a tomada de empréstimo, por parte da Ford, no Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) mas com correção monetária e pagando juros superiores aos 6% anuais; e a dispensa de obras que não fossem realmente prioritárias, entre outras. "Eram sempre composições englobando vários fatores", recordou.
Lucca mencionou uma proposta da Ford, a de aumentar o empréstimo de R$ 210 milhões para R$ 300 milhões, nas mesmas condições, com redução das obras públicas e privadas a serem tocadas pelo governo, que não foi aceita.
Já em março de 1999, o governador Olívio Dutra (PT) avisara que não seria possível à Ford preservar todas as vantagens e seria necessária uma renegociação para tornar o contrato menos oneroso ao Estado. "Não temos os recursos para isso", disse na época.