Porto Alegre, 30 (AE) - O vice-governador do Rio Grande do Sul, Miguel Rossetto, acusou o governo federal de executar "uma manobra deliberada para favorecer a saída da Ford do Estado e sua ida para a Bahia". Desta manobra, iniciada antes de a multinacional retirar-se da mesa de negociações no Rio Grande do Sul, participaram, segundo ele, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL/BA). De acordo com Rossetto, o jornal do senador baiano, A Tarde, divulgou entrevista, no dia 17 deste mês, em que o secretário de Indústria e Comércio, da Bahia, Benito Gama, explica que as negociações com a montadora duraram "quase dois meses". Ou seja, antes do dia 28 de abril, quando a Ford, após a sexta reunião com o governo estadual, abandonou as conversações.
Um artigo, publicado no mesmo dia no jornal, conta que o presidente da multinacional, Ivan Fonseca e Silva, esteve na Bahia "sob sigilo total" para conversar com o governador baiano César Borges (PFL) "uma semana antes do rompimento de relações entre a Ford e o governo do Rio Grande do Sul". No texto, a informação de que a Ford e o governo baiano começaram a se aproximar "bem antes do fracasso das negociações com o governo do Rio Grande do Sul".
Rossetto disse que, "em duas horas" da terça-feira (29), usando a base de sustentação do governo no Congresso, FHC e ACM afastaram do caminho da Ford o principal obstáculo: a alteração do Regime Automotivo para o Nordeste, que teve seu prazo transferido de 31 de maio de 1997 para 31 de dezembro de 1999 por votação no Legislativo. A "emenda Ford" foi o fator que determinou a possibilidade de a empresa ganhar vantagens e recursos do Banco Nacional Desenvolvimento e Social (BNDES) e, para ele, viabilizou a montadora na Bahia. "O episódio é deplorável mas esclarecedor", disse. "Subordinou-se o país e as regras da Federação à lógica arrogante do coronel ACM", atacou.
"O fato de o Presidente da República manifestar-se contra um Estado e a favor de uma empresa chamada Ford desrespeita o Rio Grande e, pelos recursos envolvidos, o país", declarou. Rossetto achou "escandaloso"o depoimento do presidente do BNDES, Pio Borges, ao garantir a liberação dos R$ 1,5 bilhão pretendidos pela Ford ao mesmo tempo que confessava "desconhecer qualquer projeto" da montadora. Na sua opinião, o caso revela "o uso dos recursos públicos como instrumento para o pior padrão de barganha política".
Ele declarou que a postura inflexível da Ford nas negociações com o Rio Grande do Sul foi provocada "pelas possibilidades" oferecidas pelo governo FHC. Reclamou que para o Rio Grande e os outros Estados "não se renegocia a dívida com a União e não se muda a Lei Kandir", mas em se tratando de conceder vantagens para a Bahia, o governo federal "é de uma rapidez fantástica". Para ele, a postura do presidente "aprofunda a guerra fiscal".
O vice-governador argumentou que a Ford foi a única empresa do setor que recusou a negociação nos contratos firmados com os Estados para a implantação de montadoras. "Renegociamos com a General Motors; o Itamar com a Mercedes Benz; e o Lerner está renegociando com a Renault", exemplificou.
Rossetto insistiu que o Estado nunca rompeu negociações com a Ford que, reparou, "deve cerca de R$ 140 milhões ao Rio Grande do Sul", sob a forma de um empréstimo não saldado e de ICMS devido pela importação de carros.

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