Rio, 28 (AE) - Em vez de aumentos de salários, empréstimos bancários. Esta foi a saída encontrada pelo governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PDT), para resolver as dívidas de muitos servidores públicos com agiotas, algumas vezes intermediadas por associações de funcionários e cobradas na folha de pagamento. Uma linha de crédito a juros médios de 4% ao mês foi aberta para impedir a agiotagem e financiar de obras a pequenos negócios.
Desde quarta-feira passada, milhares de funcionários formam filas que dobram quarteirão em seis postos de atendimento do banco BMG, o primeiro a fechar acordo com o governo."Eu não queria empréstimo, queria um salário que não me obrigasse a pagar 12,5% por mês para agiota", disse a professora Maria Helena Botelho, de 55 anos, que quer quitar a dívida de R$ 500. Ela tem 21 anos de magistério e com o salário de R$ 484 ajuda a sustentar seis netos.
O cálculo do empréstimo é baseado no salário do servidor público - por questão burocrática, apenas funcionários do executivo que têm folha de pagamento controlada pela Secretaria de Administração podem entrar no programa - e no número de mensalidades, que podem chegar a 18. "A prestação não pode ultrapassar 40% da renda mensal, descontando-se os encargos", disse o diretor comercial do banco, Zoroastro Botelho Penna.
O bombeiro reformado Antônio Alves, de 57 anos, por exemplo, conseguiu R$ 2.220 para quitar dívidas. Ele recebe R$ 1.400 e vai pagar 18 mensalidades de R$ 198. Os juros de 3,5% a 4,5% não foram considerados abusivos pelo diretor administrativo da Associação Nacional de Devedores de Instituição Financeira (Andif), Marcelo Fernando. "Os bancos cobram de 6% a 12% de juros no cheque especial", comparou.
O BMG tem o retorno da quantia financiada garantido pelo desconto em folha e o lucro, pelo volume dos empréstimos. Dos 430 mil servidores que têm direito ao benefício, Penna calcula que 150 mil devam procurar o banco. O BMG vai investir, com recursos próprios, pelo menos R$ 300 milhões - a média de cada pedido é de R$ 2 mil. "Os servidores não precisam vir às pressas, o empréstimo não tem prazo para terminar e o dinheiro não vai acabar", afirmou o diretor.
Os empréstimos são liberados em 24 horas depois de feito o cadastro e da aprovação da Secretaria de Administração. Hoje o valor mais alto pago a um servidor foi de R$ 16.571. O mais baixo, de R$ 350. É o que espera conseguir a merendeira aposentada Luiza Pereira, de 58 anos."Quero comprar um metro de areia e três sacas de cimento para consertar o telhado do meu barraco", contou. "Chove muito dentro de casa".
O secretário de Administração, Hugo Leal, informou, por intermédio de sua assessoria, que fechará acordos com outros bancos até a primeira semana de janeiro para oferecer empréstimos a servidores estaduais. Ele está negociando com Banerj, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil,Banco Real, BMC e Banespa.

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