Governo do DF aposta no esporte contra a violência
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quarta-feira, 14 de julho de 1999
Por Demétrio Weber 
Brasília, 15 (AE) - O esporte pode vencer a guerra contra a violência e acabar com as gangues juvenis. Essa é a aposta do governo do Distrito Federal, que decidiu oferecer opções de lazer aos jovens de Planaltina, cidade-satélite a 40 quilômetros de Brasília marcada por conflitos entre gangues. Desde junho, uma escola funciona diariamente, até mesmo nos fins de semana, das 23 às 2 horas, com atividades como futebol e pingue-pongue. "É melhor cuidar dos jovens do que prendê-los", disse na madrugada de hoje o secretário de Segurança do DF, Paulo Castelo Branco, durante campeonato promovido para comemorar o primeiro mês do Programa Esporte à Meia-Noite.
Tráfico e consumo de drogas, roubos, assaltos e homicídios estão presentes na vida de muitos participantes do projeto. Um deles, de 19 anos, já presenciou a morte, a tiros, de cinco colegas. Perdeu o irmão mais velho do mesmo jeito e já deixou paralítico um rapaz ao atingi-lo com um tiro, após uma briga. "Na rua é a guerra", disse ele, com a condição de não ser identificado. "O traficante manda matar outro e depois vem o troco". Desempregado e sem estudar - abandonou a escola na 7.ª série -, ele mora com a mãe e não faz planos para o futuro. Sabe apenas que na rua não se vive muito. Os conflitos, segundo ele, costumam ser causados por disputas de território entre as gangues. "Quando a gente vê, pára um carro no meio da rua e quem tá dentro começa a atirar".
De acordo com a coordenadora do projeto, Adaldei Filha, o horário com maior número de ocorrências policiais envolvendo menores de idade, em 1998, foi o da meia-noite à 1 hora. "Nesse horário todos deveriam estar dormindo, mas constatamos que muitos saíam da aula e ficavam na rua", afirmou Adaldei. Ainda não há estatísticas para avaliar a eficácia do programa. No primeiro semestre, a polícia prendeu 28 integrantes de gangues em Planaltina, dos quais 12 eram menores de idade. Segundo o secretário de Segurança, cerca de 250 jovens estão ligados a grupos responsáveis por tráfico de drogas, furtos, assaltos e homicídios na cidade.
Ontem, as atividades do Esporte à Meia-Noite começaram mais cedo: cerca de cem garotos e garotas assistiram, num telão, ao jogo entre Brasil e México, pela semifinal da Copa América. Depois, disputaram torneios de futsal e pingue-pongue, com direito a medalhas, lanche e o sorteio de três cestas básicas. Em seu primeiro mês, o projeto já começou a mudar a rotina de muitos jovens. "Antes a gente ficava até tarde conversando nas esquinas", contou o desempregado Raimundo dos Santos Garcez, de 26 anos, um dos mais assíduos frequentadores do Centro de Assistência Integrada à Criança (Caic) Assis Chateaubriand, em Planaltina. "Mas os que aprontavam confusão morreram ou estão presos e o resto começou a vir para cá", afirmou Garcez.
O número de participantes varia. Pode chegar a cem, como na última quarta-feira, ou não passar de dez. Mas a média é de 70, segundo a coordenadora Adaldei. Quem eventualmente passa por lá é o jogador de futebol Luiz Carlos Rodrigues Merrê, atacante do Brasília, time que disputa a 1.ª divisão do DF. "Ainda dá para recuperar muita gente que está se acabando com as drogas", acredita Merrê. O projeto tem custo baixíssimo. Dois ônibus da própria polícia garantem o transporte de ida e volta dos jovens, percorrendo um roteiro que inclui escolas onde há turmas à noite. As atividades são coordenadas por monitores do Corpo de Bombeiros, que têm a ajuda de uma psicóloga e uma assistente social do governo.
A idéia é estender a iniciativa para Ceilândia, outra cidade satélite de Brasília, ainda este ano. Uma regra fundamental é que ninguém precisa identificar-se para participar. "Basta dar um bola que eles se entendem", concluiu a coordenadora Adaldei.


