Governo desmente acordo com o MST
Emerson Cervi
De Curitiba
O governo do Paraná negou ontem a existência de qualquer acordo oficial com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) prevendo a desocupação espontânea da praça Nossa Senhora de Salete nos próximos dias. Em nota oficial, o governo assegurou não existir qualquer documento nesse sentido da parte do MST, dando conta da disposição de deixar a praça em 30 de novembro, que seria hoje. A declaração do governo rebate declarações de lideranças do MST e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de que a saída dos sem-terra de Curitiba já estava prevista. A Polícia Militar desocupou a praça do Centro Cívico na manhã de sábado.
O governo afirma que em várias reuniões anteriores lideranças do MST se comprometeram em deixar a praça, mas em nenhuma ocasião as promessas foram cumpridas. Durante os quase seis meses de negociações, o ministro da política fundiária, Raul Jungmann, veio ao Paraná para anunciar a liberação de recursos à reforma agrária e para financiamento da agricultura familiar. Mesmo assim não conseguiu sensibilizar os sem-terra.
O episódio pontual de desocupação da praça não afeta a disposição do governo de permanecer aberto ao diálogo como parte do processo de mediação da questão agrária no Paraná. Prova disso é que na última sexta-feira, dia 26, o Ministério da Política Fundiária manteve contato com o governo do Estado para consultá-lo sobre um esboço de proposta que contempla uma solução global para os problemas fundiários, reafirma a nota (leia texto na íntegra ao lado).
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que viajou a Curitiba para prestar solidariedade ao MST, endossou afirmações dos líderes, de que os sem-terra se preparavam para deixar a praça. Ele afirmou que na sexta-feira, dia 26, recebeu uma ligação de Maria Oliveira, do Incra de Brasília, informando que o acordo para o início dos assentamentos no Paraná estava concluído. Roberto Baggio, coordenador do MST no Paraná, reafirmou ontem que a desocupação espontânea da praça dependia apenas da confirmação do início dos assentamentos das 3 mil famílias.
Para o presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, deputado Nelson Justus (PTB), o governador Jaime Lerner renovou sua conduta de tolerância ao esperar por seis meses que os ocupantes da praça atendessem aos apelos e à liminar judicial que mandava liberar aquele espaço público. Justus deu total apoio para a ação policial de desocupação da praça. O governo agiu dentro da lei ao cumprir a ordem judicial de reintegração de posse daquele patrimônio público.
A bancada ruralista da Assembléia Legislativa também apoiou o governo do Estado. Em nota assinada por 16 deputados, os ruralistas afirmam que esta atitude de firmeza responde aos clamores da opinião pública, dando exemplo de respeito ao estado democrático de direito no Paraná. Os ruralistas vinham exigindo a retirada dos sem-terra da praça desde julho. No final da tarde de ontem, uma comissão de representantes de associações de moradores de bairro, empresários e de vereadores de Curitiba fizeram uma visita ao governador Jaime Lerner e também manifestaram apoio irrestrito à medida.
Diretórios estadual do PMDB e do PDT do Paraná divulgaram notas de solidariedade aos sem-terra. Segundo a nota do PMDB, o governo transgrediu normas básicas do Direito durante a operação, agiu de forma truculenta e tudo foi feito às escondidas, de madrugada. Segundo o presidente do diretório do PDT, Nelton Friedrich, isso revela um comportamento típico daqueles que atuam na calada da noite para esconder o verdadeiro perfil do governo.Nota oficial rebateu declarações do MST de que houve negociação para a saída espontânea da praça em frente ao Centro Cívico, em Curitiba
Mauro FrassonSOLIDARIEDADEEduardo Suplicy participou de comissão que levou ao governador o repúdio de entidades à desocupação





