Governo descarta inflação provocada por crescimento
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segunda-feira, 18 de outubro de 1999
Por Sílvia Faria 
Brasília, 19 (AE) - O governo não acredita que o crescimento da economia traga de volta o fantasma da inflação e de novas crises externas, conforme sustentam alguns economistas do setor privado.
Munido de gráficos, análises sobre experiências nacionais e internacionais, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, disse que o Brasil tem capacidade produtiva ociosa na indústria, superoferta de mão-de-obra e perspectivas melhores de comportamento de preços no próximo ano. Esses fatores, segundo ele, tornam possível o crescimento econômico sem pressões inflacionárias ou estrangulamento das contas externas.
O dilema é o mesmo, lembrou o secretário: o crescimento da economia causa pressões inflacionárias e/ou pressões sobre o balanço de pagamentos. Para ele, a economia brasileira, no entanto, está operando bem abaixo da capacidade instalada, o que significa que é possível produzir mais sem pressões de custos adicionais.
Há, também, superoferta de mão-de-obra. Então, segundo ele, não se vislumbra pressão sobre o custo-salário, que poderia constituir novo foco de aumento de preços.
Para o secretário, a indústria brasileira vai crescer entre 5% e 6% no ano 2000, sem conseguir repor o nível de atividade anterior à crise asiática (outubro de 1997). Em média, o Produto Interno Bruto (PIB) deverá crescer 3,5% no ano 2000, segundo Amadeo."A indústria está operando hoje com uma ocupação 17,4% abaixo da média realizada durante o período do Real (de julho de 1994 a julho de 99)", observa o secretário. "A utilização da capacidade produtiva industrial instalada é 34% inferior ao nível observado em outubro de 97, véspera da crise asiática e 3,2% abaixo da média da década", enfatiza ele.
A esses argumentos estatísticos, Amadeo acrescenta que a produtividade da economia brasileira cresceu 13,5% ao ano desde 94 e é lógico esperar que continue crescendo.
Reprimida - A tese da inflação reprimida, que vem sendo levantada como obstáculo ao crescimento, também é contestada por Amadeo com pesquisas sobre o que ocorreu na ásia e também no Brasil, antes e depois do Real.
Segundo o secretário, a relação entre o Indice de Preços no Atacado (IPA) e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) ainda está abaixo do nível de 1994. "Quer dizer que não há pressão sobre as margens no varejo", afirma.
O secretário-adjunto, Fernando Montero, observa que não se pode defender a existência de uma inflação reprimida porque o IPA está maior que o IPC e, consequentemente, será repassado a qualquer momento. Ele lembrou que o IPC, depois da estabilização
subiu muito mais que o IPA, por causa dos preços dos serviços, que não podem ser importados e têm maior peso no IPC, como aluguel, cabeleireiro, restaurantes.
Quando o dólar ficou barato, com o lançamento do real, como em todo plano de estabilização ancorado no câmbio, o preço dos serviços continuou subindo. Isso significa, simplificando a análise, que o IPC ainda teria "gordura".
Com o IPA ocorreu o contrário, porque sua composição tem maior peso dos produtos que podem ser importados, como foram. O dólar barato e a abertura do mercado promoveu a concorrência entre produtos domésticos e importados, produzindo forte queda da inflação. O IPA agora está recuperando essa defasagem, o que não significa, necessariamente, que falta repassá-la ao IPC, segundo Montero.
"Em tempos normais, não é só no Brasil, IPA e IPC sobem e caem juntos", observa Montero. "Não há resíduos que são repassados mais tarde", conclui, mencionando que é exatamente o que está se observando agora na ásia, passada a fase aguda da crise cambial.
Ainda contestando a tese da inflação reprimida, Amadeo lembra que as adversidades este ano - choque dos preços externos do petróleo, correção das tarifas administradas, entressafra agrícola problemática e a desvalorização do real - dificilmente se repetirão no próximo ano.


