Governo decide aplicar questionário do censo 2000 sobre fecundidade a meninas a partir de 10 anos
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terça-feira, 10 de agosto de 1999
Por Gabriela Athias Enviada especial 
Brasília, 11 (AE) - Pela primeira vez o censo demográfico brasileiro, que começará a ser feito em agosto de 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
vai aplicar o questionário de fecundidade a meninas a partir de dez anos. Até hoje, perguntas relativas a vida sexual vinham sendo feitas a adolescentes de, no mínimo, 15 anos. Ao incluir meninas de dez anos nos relatórios de fecundidade, o governo federal, por meio do IBGE, está reconhecendo a atividade sexual de meninas a partir dessa idade.
Hoje, durante a abertura do Simpósio Internacional Sobre Gravidez na Adolescência, em Brasília, o ministro da Saúde José Serra disse que os técnicos envolvidos em programas de prevenção à gravidez e em programas de juventude devem aconselhar adolescentes de até 14 anos a não fazer sexo. "É até difícil explicar para um garoto de 11 ou 12 anos como usar preservativo", disse.
O fato é que quando o censo começar a ser feito, as meninas brasileiras de dez anos serão convidadas a responder a seis perguntas sobre fecundidade, como por exemplo: quantos filhos nascidos vivos teve até julho de 2.000? qual é a data de nascimento ou a idade presumida do último filho nascido vivo e quantos filhos nascidos mortos teve até 31 de julho de 2.000? O economista Francisco Prado, do IBGE, diz que os entrevistadores receberam treinamento especial para conduzir as perguntas de fecundidade. Antes de ouvir as meninas, os pesquisadores explicarão ao pai e a mãe os motivos da pergunta e a entrevista com a menina será feita na presença dos responsáveis. "Se os pais não permitirem a entrevista, esse item do questionário ficará em branco", explica. Prado admite que, em alguns casos, o questionário poderá trazer constrangimento às famílias. No entanto, ele ressalta que as perguntas do questionário foram feitas por pesquisadores, técnicos do IBGE e usuários. O questionário levou três anos para ser elaborado e concluído. Adolescência - Elza Berquó lembra que os dados disponíveis sobre gravidez na adolescência são os do Sistema Único de Saúde (SUS), que atende prioritariamente adolescentes que não têm plano de saúde. "O censo é a única forma de saber realmente quantas meninas tiveram filhos, inclusive em clínicas privadas", disse hoje a pesquisadora Elza Berquó, consultora do censo 2000, durante o Simpósio Internacional sobre Gravidez na Adolescência, em Brasília.
Por enquanto, os pesquisadores que estão fazendo um piloto do censo, em Bonito, no Pará, e em Marília, São Paulo, não tiveram problemas ao fazer essas perguntas. "Na zona rural e no interior as pessoas encaram isso com mais naturalidade", diz ele. Dados do Ministério da Saúde mostram que em 1998 o SUS financiou 31.857 partos (1,22% do total) de meninas de dez a 14 anos. Em 1993, esse porcentual era de 0,93%. Para tentar conter esse aumento, o governo está apostando em programas intersetoriais, que envolvam principalmente os setores de educação e saúde. Asgenda - Hoje, o Ministério da Saúde, em parceria com agências internacionais, lançou uma proposta de agenda nacional para a juventude. No documento, o governo compra uma briga com a indústria tabagista: sugere a proibição da venda de cigarros em máquinas automáticas e a vinculação "glamourosa" da presença de adolescentes em propagandas de cigarro. Também pede o aumento do imposto sobre o produto para que o preço seja proibitivo aos jovens. Mais: pede que os fabricantes de cigarro sejam impedidos de patrocinar eventos que exerçam atração e a presença dos adolescentes. Para finalizar, seria permitido fumar apenas em locais públicos "restritos ao prazer dos adultos".


