São Paulo, 17 (AE) - O governo do Estado de São Paulo está sendo pressionado por prefeitos, vereadores, empresários e sindicalistas a adiar por seis meses a privatização da Companhia Energética de São Paulo (Cesp). A venda da empresa, um dos compromissos do acordo de renegociação das dívidas de São Paulo com o governo federal, poderá render cerca de US$ 4 bilhões, além de transferir para a iniciativa privada a monumental dívida de US$ 9 bilhões da estatal. As últimas parcelas da dívida serão pagas em 2024.
A pressão contra a venda da Cesp vem principalmente das prefeituras do interior situadas às margens das hidrelétricas dos rios Tietê e Paraná. A alegação é a de que a privatização coloca em risco o funcionamento da principal hidrovia do Brasil - a Tietê-Paraná - além de ameaçar projetos turísticos e de irrigação.
O movimento contra a venda da estatal mais endividada do País cresceu nos últimos dias, depois que as privatizações da Centrais Elétricas do São Francisco (Chesf) e da Eletronorte foram adiadas por 180 dias.
Até a onda de reclamações contra a Telefônica, atual dona da Telesp, serve de argumento pelos opositores da venda da Cesp. "Não queremos que façam na geração de energia o que fizeram na telefonia", argumenta o deputado estadual Carlos Zarattini (PT), que na última quinta-feira coordenou um encontro
na Assembléia Legislativa, de mais de 150 políticos e sindicalistas do interior contra a privatização das unidades de geração da Cesp.
O governador Mário Covas recebeu, nos últimos dias, vários documentos contra a venda da empresa, um deles dos armadores que trabalham com transporte de mercadorias pela Tietê-Paraná. Outra correspondência, da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), cita algumas das preocupações das indústrias em relação à hidrovia e outras atividades ligadas à utilização dos recursos hídricos no interior, como irrigação e turismo.
Na sexta-feira, o líder do governo na Assembléia, Walter Feldman (PSDB), entregou ao governador um documento com assinaturas de dezenas de deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores, pedindo a prorrogação da venda da Cesp.
O secretário de Energia, Mauro Arce, disse que os argumentos serão analisados antes da publicação dos editais de venda, nos próximos dias. Se forem consistentes, o governo pode rever sua decisão e postergar a venda das empresas, admite o secretário. "Há argumentos que são puramente ideológicos e outros que são colocados apenas como estratégia dos opositores das privatizações para ganhar tempo", declarou Arce. Ele ressaltou que serão ouvidos todos os envolvidos no processo, de forma democrática. "Se existirem problemas concretos poderemos adiar o edital, mas por enquanto não há nada que indique a necessidade de prorrogação." Arce admite que existem ainda alguns fatores nos quais há indefinição, mas disse que todas as dúvidas serão esclarecidas até o lançamento do edital.
Integrantes do governo comentam, reservadamente, que muitos dos críticos são políticos que no passado se beneficiaram dos favores da estatal. Para ser vendida, a Cesp foi dividida em três unidades. A primeira a ir a leilão, dia 26 de maio, herdou o nome da estatal e vem sendo chamada de "Cesp remanescente". Ela é formada pelas hidrelétricas de Ilha Solteira, Jupiá e Porto Primavera, no Rio Paraná, além da usina Três Irmãos, no Tietê. O segundo leilão, dia 9 de junho, será o da Companhia de Geração de Energia Elétrica do Paranapanema, que reúne oito hidrelétricas ao longo do rio que divide os Estados de São Paulo e Paraná. No dia 16 de junho o governo pretende vender a Companhia de Geração do Tietê, com nove barragens nos rios Tietê
Pardo e Rio Grande.
Endividamento - Juntas, as três divisões da Cesp representam uma capacidade instalada de 12,5 milhões de quilowatts. O valor total da empresa, levando em conta a quantia utilizada como referência no setor de energia elétrica, de US$ 1 00 por quilowatt instalado, é de US$ 12,5 bilhões. O problema é a dívida histórica da Cesp, hoje ao redor de US$ 9 bilhões, decorrente de erros de planejamento do setor elétrico e atrasos na construção das barragens.
A última hidrelétrica inaugurada pela Cesp é a unidade de Porto Primavera, batizada de usina Sérgio Motta. A obra demorou 20 anos para ficar pronta e está funcionando com apenas 3 dos 18 geradores previstos. Todos os equipamentos elétricos e mecânicos foram comprados antecipadamente no início do projeto e estão até hoje estocados em galpões climatizados ao lado da barragem. O custo original do projeto era de US$ 2,2 bilhões, mas o custo contábil já chega a US$ 11 bilhões.
A privatização foi a solução encontrada para livrar o governo paulista da dívida impagável e resolver a falta de recursos para investir no setor elétrico nos próximos anos.

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