Governo dá ultimato a sem-terra do MS
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terça-feira, 01 de abril de 1997
Agência Estado, de Campo Grande 
Aumenta o clima de tensão entre as quase 2,5 mil famílias de sem-terra que invadiram a Fazenda Santo Antonio, localizada no município de Itaquiraí, no extremo sul de Mato Grosso do Sul e a 395 quilômetros de Campo Grande. Em um encontro realizado ontem pela manhã entre líderes dos invasores, ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann; governador Wilson Barbosa Martins (PMDB); representantes de órgãos públicos e entidades ligadas direta ou indiretamente com a questão fundiária do Estado, ficou decidido que terminou prazo de tolerância com os ocupantes do imóvel, invadido dia 8 do mês passado.
A ordem judicial para despejar as quase 2.500 famílias de sem-terra da Fazenda Santo Antônio será cumprida, segundo garantiu ontem o governador Wilson Barbosa Martins. Os sem-terra garantem que estão preparados para resistir a força policial, que deve ser feita por 700 homens, segundo cálculos feito pelo comandante-geral da Polícia Militar, coronel Pm Francisco Libório.
Tanto o ministro quanto o governador afirmaram aos líderes que o despejo pode sair a qualquer momento. O comandante-geral da PM afirmou que está com 200 PMs nas proximidades da área e providenciou contingentes da Capital e várias cidades do interior, para formar um cerco em torno dos invasores. São aproximadamente nove mil homens, mulheres e crianças que estão dispostos a enfrentar os policiais com foices e outras ferramentas agrícolas. Os coordenadores do MST acreditam em um banho de sangue, caso a PM entre armada no acampamento. Os sem-terra já demonstraram essa disposição no último dia 12, quando enfrentaram e desarmaram um pelotão de soldados, tomando deles as armas, entre elas até metralhadora, durante uma tentativa de despejo.
Marcha Eles já percorreram 700 quilômetros a pé, para defender a bandeira de um caminho sem volta. Um grupo com 750 trabalhadores vindos do Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e outros Estados que aderiram ao longo das estradas, se reuniu ontem, na Praça Cívica de Goiânia, para defender um sonho e um modelo de reforma agrária ampla, justa e imediata.
O modelo foi defendido por Gilberto de Oliveira, coordenador dos trabalhadores sem-terra que participam da marcha nacional pela reforma agrária. A síntese do movimento desaba em Brasília, a partir do dia 17, na Praça dos Três Poderes. Vamos exigir empenho do governo e do Congresso para fazer a reforma, acredita OLiveira.
Os sem-terra participaram de um ato público, que teve Luis Carlos Prestes, Filho, herdeiro do líder comunista brasileiro, mais Frei Beto, Maria Prestes e as bandeiras políticas do PT e do MST, músicas de Almir Sater e ainda ganharam R$ 25 mil do governador Maguito Vilella (PMDB).
A marcha nacional chega a Goiás num momento delicado onde, o órgão criado pelo governo para promover a reforma agrária no País vive uma de suas piores crises. No ano passado mal conseguiu fazer três assentamentos, e desde ontem, 16 funcionários do Incra-GO foram afastados sob a suspeita de utilizarem na reforma agrária de Goiás, terras improdutivas porque não prestavam, mas que foram compradas a preços supervalorizados. A determinação foi do ministro Raul Jungmann.
E a quarta invasão da fazenda Santa Rosa, ocupada em Itaberaí (GO) por 400 famílias, está criando um impasse entre a Justiça e a polícia. Ignorando decisão judicial de reintegração de posse, os sem-terras mantiveram a área de 8.087 hectares ocupada alegando que o laudo do Incra, que torna a área produtiva, é falso. A Justiça recuou para impedir o confronto entre os lavradores e a Polícia Militar.


