Governo chileno não está otimista nem pessimista por decisão sobre Pinochet
Santiago, 22 (AE-ANSA)- O chanceler José Miguel Insulza disse que o governo chileno "não está pessimista nem otimista" sobre a decisão que tomarão os lordes ingleses sobre a imunidade alegada pelo ex-ditador Augusto Pinochet, detido em Londres a pedido da justiça espanhola.
Mesmo assim, às vésperas da decisão, prevista para quarta-feira (24), a cúpula das Forças Armadas e da igreja intervieram na questão.
Insulza acrescentou que "o governo chileno quer que os lordes encerrem este assunto reconhecendo os princípios argumentados no juízo".
A chancelaria chilena contratou advogados em Londres para defender o princípio da soberania do Estado chileno para julgar os delitos cometidos em seu território.
Pinochet está preso em Londres há 157 dias, a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, que tenta julgá-lo por violações aos direitos humanos ocorridas durante o regime liderado pelo militar entre 1973 e 1990.
Durante a jornada, os chefes das Forças Armadas coincidiram em opinar que a detenção do ex-ditador em Londres "atenta contra a soberania do Chile".
Em todos os quartéis do país foi lido esta manhã um documento do comandante do exército, Ricardo Izurieta, no qual recorda-se a proibição absoluta de o pessoal uniformizado participar de atividades políticas e de qualquer manifestação pública.
Além disso, os chefes das Forças Armadas deram uma demostração de poder ao concorrer em conjunto aos atos de celebração do aniversário da Força Aérea.
Durante a cerimônia, à qual compareceu o presidente Eduardo Frei, o comandante da Aeronáutica, general Fernando Rojas, qualificou como "ignominiosa" a situação de Pinochet.
Rojas também disse que "estamos todos muito preocupados pela solução do problema do ex-general Pinochet" e, em entrevista ao jornal El Mercurio, expressou que "não é errado" interpretar o inesperado desfile como um apoio ao ex-militar.
Por sua vez, Izurieta disse que "todos os chilenos, independentemente de sua postura sobre a história recente de nosso país, têm o dever de resguardar nossa soberania".
O El Mercurio antecipou que o episcopado está prestes a emitir um documento sobre a questão do veredicto dos lordes, no qual exortará os chilenos a manter a serenidade, em um clima de reflexão.
No entanto, informou que as autoridades locais pediram autorização às britânicas para a aterrissagem em um aeroporto próximo a Londres de um avião que estará pronto para transportar Pinochet no caso de os lordes decidirem em favor do argumento de que teria imunidade como ex-chefe de Estado.
Enquanto setores do governo (democratas-cristãos e socialistas) e os familiares de vítimas de violações aos direitos humanos reiteram que Pinochet deveria fazer um "gesto", o candidato presidencial direitista Joaquín Lavín afirmou hoje que "não é o momento de exigi-lo".
Mas Lavín, ferrenho partidário de Pinochet, concordou com o governo de centro-esquerda que o ex-ditador "pode ser julgado no Chile, apesar destas situações terem ocorrido há muitos, muitos anos".
Por sua parte, o presidente do partido direitista Renovação Nacional, Alberto Espina, declarou que "no Chile não há ninguém intocável".
No entanto, os líderes dos partidos de governo, como os pré-candidatos presidenciais, o socialista Ricardo Lagos e o democrata-cristão Andrés Zaldivar, indicam que um juízo de Pinochet no Chile "é muito improvável, porque está em vigor seu privilégio como senador vitalício".
Em Londres, onde ativistas pró e contra o general preparam manifestações para pressionar a Justiça britânica, as autoridades locais estenderam até o dia 6 de abril a prisão domiciliar de Pinochet. Nesta data, caso a Câmara dos Lordes não lhe seja favorável quarta-feira, têm início formal as audiências do processo de extradição para a Espanha.
Responsável pela emissão da ordem internacional de prisão atendida pela Grã-Bretanha, a Justiça espanhola tenta julgar Pinochet por crimes contra a humanidade cometidos durante seu regime. Segundo dados oficiais, 3.197 pessoas foram mortas ou desapareceram entre elas, vários espanhóis durante a ditadura Pinochet.





