Governo busca responsável por divulgação de fitas do grampo
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terça-feira, 25 de maio de 1999
Por Gerson Camarotti 
Brasília, 26 (AE) - O governo federal está à caça do intermediário das fitas resultantes de "grampo" no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) divulgadas nesta semana. Para o Palácio do Planalto, é uma questão de honra descobrir e tornar público o nome dos interessados na divulgação das diálogos obtidos por meio de gravações clandestinas em que o ex-presidente do banco André Lara Resende pergunta ao presidente Fernando Henrique Cardoso se poderia usar o seu nome para forçar a Previ - fundo de pensão do Banco do Brasil - a entrar em um dos consórcios que disputava a privatização do Sistema Telebrás. Segundo interlocutores próximos do presidente, descobrir os intermediários dessas conversas grampeadas é uma prioridade ainda maior do que encontrar os autores do grampo, fato que vem sendo investigado no Rio de Janeiro pelo delegado da Polícia Federal Rubens Grandini.
Embora as investigações ainda estejam em andamento, o Planalto já tem uma forte suspeita e acredita que o responsável pela divulgação dos diálogos seja o ex-senador Gilberto Miranda (PFL-AM). Segundo um interlocutor do presidente, essa hipótese começou a ganhar força depois que a Polícia Federal pediu a quebra do sigilo telefônico do ex-senador, há duas semanas, para aprofundar as investigações sobre o dossiê Cayman, conjunto de documentos forjados para associar o presidente e outros políticos tucanos a uma empresa naquele paraíso fiscal. Miranda também é apontado como um dos responsáveis pela divulgação do papelório.
"Gilberto Miranda está divulgando essas fitas em retaliação às investigações do dossiê", afirma esse interlocutor do presidente, lembrando que o ex-senador "sempre esteve envolvido nos escândalos mais recentes da República" como o caso Sivam, em que Miranda aparecia defendendo interesses de um dos grupos que disputavam a licitação. Procurado pela reportagem, o ex-senador respondeu com ironia. "Essa suspeita não tem nenhuma procedência; o governo deve achar que eu sou muito importante."
Na busca do responsável pela divulgação das fitas, também chegou a ser cogitado o nome do empresário Carlos Jereissati, presidente do Conselho de Administração da Telemar. Quando a primeira fita foi divulgada, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros chegou a acusar Jereissati de ter encomendado o grampo. Àquela época, os dois divergiam em relação à venda de 25% da BNDES-Par na Telemar para a Itália Telecom.
Na ocasião, Jereissati chegou a fazer insinuações, numa entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", sobre a lisura de Mendonça de Barros. "Essa intriga de poder é econômica e financeira, afinal ninguém facilita processo de privatização sem que haja interesses", acusa o deputado Walter Pinheiro (PT-BA). Mas o Planalto já começa a descartar a possibilidade do envolvimento de Jereissati nas divulgações das novas fitas, pois ele não teria nenhum interesse atual em alimentar a intriga. Um dos motivos para a sua suposta isenção seria o fato de o Grupo La Fonte, controlado por Jereissati, ter conseguido há um mês ajuda da Previ para pagar a segunda parcela da Telemar - que vence em agosto. Procurado hoje pela reportagem, Jereissati não respondeu à ligação. A informação é que ele estaria em viagem à Ilha da Madeira.
Hoje, o porta-voz da Presidência da República, Georges Lamazire, afirmou que o presidente é o maior interessado em descobrir quem fez a escuta telefônica e quem mandou praticar esse ato ilícito. Ele descartou a necessidade de uma CPI para investigar o assunto, por considerar que os fatos "já foram por demais esclarecidos". O porta-voz declarou: "Da parte do governo, não há nenhuma dúvida nem nenhuma necessidade de esclarecimentos adicionais."
Hoje, a Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara rejeitou por 11 votos a 9 a convocação de Mendonça de Barros, Lara Resende e do atual presidente do BNDES, Pio Borges, para prestar informações sobre o processo de privatização da Telebrás. "A oposição quer um holofote", disse o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), para justificar a posição dos aliados.
A estratégia continua sendo a de isolar o presidente Fernando Henrique do caso e distanciá-lo de Mendonça de Barros. "Respeito a opinião do governador Mário Covas e de outros tucanos que querem colocar Mendonça como o seu expoente máximo, mas a hora foi inadequada", disse o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), referindo-se à eleição do ex-ministro para uma vice-presidência do PSDB. ACM frisou que Mendonça de Barros não tem condições de retornar ao governo.
O presidente nacional do PMDB, senador Jáder Barbalho (PA), foi mais enfático. "Acho que o presidente Fernando Henrique foi enganado e acabou sendo vítima desse processo", afirmou Jáder, acusando os responsáveis pela privatização da Telebrás. Hoje, alguns dirigentes do PPB foram prestar solidariedade ao presidente. "O apoio do PPB ao governo é amplo e irrestrito", disse o ministro do Trabalho, Francisco Dorneles.


