Governo britânico não descarta renacionalização de ferrovias Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, ARIS - O trágico balanço ainda parcial do acidente ferroviário de Londres, o maior da história da rede ferroviária britânica, lança o debate sobre uma provável renacionalização do sistema. O governo afirma que esse tema não está ainda na ordem do dia, mas não descarta o exame dessa provável evolução.
Vários editorialistas dos jornais britânicos defendem essa idéia para o setor ferroviário, mesmo sendo ardentes defensores do sistema de privatizações. Outros defendem um controle mais rigoroso do Estado e uma revisão das condições de exploração oferecidas às empresas.
O acidente de Londres ganha dimensão européia, especialmente na França, onde a SNCF, rede ferroviária francesa, constitui um dos setores estatais que escapou da privatização. No país do TGV (trem de alta velocidade), o setor ferroviário tecnicamente não apresenta problemas, pelo contrário, é tido com um dos mais modernos do mundo. Os usuários franceses só lamentam as repetidas greves, mas nem os mais fervorosos defensores das privatizações francesas imaginam essa solução para a SNCF nesse momento.
Para os especialistas, o sistema de segurança adotado na Grã- Bretanha é um dos mais arcaicos se comparado com o francês e por total ausência de investimentos, razão pela qual teme-se que um acidente semelhante possa ocorrer com o próprio Eurostar, o trem que liga Paris a Londres, sob o Canal da Mancha.
No trecho inglês, segundo um condutor do Eurostar, Gerard Tavernier, a segurança deixa muito a desejar. Até hoje, os britânicos não adotaram o sistema de proteção ATP que imobiliza uma composição automaticamente em caso de perigo, como, por exemplo, o não respeito a um sinal vermelho, exatamente o que ocorreu na colisão em Londres.
Na Inglaterra, o TGV é obrigado a manter uma velocidade reduzida e pode passar um sinal vermelho sem se imobilizar automaticamente. Para que se tenha uma idéia do perigo potencial , os construtores pretendem acelerar a construção da nova linha rápida que deverá ser utilizada pelo Eurostar. Os trabalhos estão quatro anos atrasados do lado britânico e concluídos do francês. Os 108 quilômetros entre a boca do túnel e Londres só deverão ser concluídos em 2005, a um custo estimado em US$ 3,5 bilhões.
A British Rail, privatizada entre 1996-97, delegou toda gestão de sua infra-estrutura e segurança a Railtrack que fez economia em matéria de segurança. Hoje, essa e outras empresas do setor ferroviário estão sendo responsabilizadas pela advogada dos passageiros feridos em acidentes ferroviários, Louise Christian. "Eles matam para economizar algum dinheiro."
Depois da privatização, os investimentos em infra-estrutura têm sido limitados, daí a queda da qualidade e da segurança oferecidas pela rede ferroviária britânica que chegou a ser um modelo para o mundo inteiro. O principal sindicato dos condutores ferroviários deu apenas uma semana para que as companhias anunciem sua adesão a ATP, o mais moderno sistema de segurança ferroviário utilizado em quase toda a Europa, pois do contrário entrarão em greve no setor.
As companhias privadas britânicas, segundo o vice-primeiro- ministro John Prescott, por razões financeiras rejeitaram dotar todos os seus trens desse sistema, optando por um seis vezes mais barato, mas muito menos eficaz.
Os resultados têm sido desastrosos.





