São Paulo, 11 (AE) - O governo boliviano negou hoje (11) qualquer risco de militarização do país e informou que as conversações para contornar os conflitos nas províncias de La Paz e Cochabamba e no povoado de Achacachi, a cerca de 120 quilômetros ao oeste da Capital, já foram iniciadas.
Embora reconheçam a gravidade da situação, fontes do governo do presidente Hugo Bánzer informaram que os problemas naquelas localidades começaram com a decretação do estado de sítio no país, no sábado, e não têm relação entre si. A Igreja e o setor privado boliviano, preocupados com a repercussão no exterior, decidiram interferir.
O estopim do movimento em La Paz começou na sexta-feira à noite, quando a polícia da maior cidade do país decretou a paralisação total das atividades por causa dos baixos salários e da precariedade de armamentos, viaturas e da proteção dos policiais para combater a criminalidade e o narcotráfico. Os salários dos policiais que trabalham nas ruas de La Paz não passa de US$ 70 (hoje R$ 124,00), razão pela qual exigiam um aumento de 100%.
Com a greve decretada a partir de sábado passado, o governo decidiu, então, colocar nas ruas de La Paz as Forças Armadas. Nunca antes tal combinação deu certo. Policias em greve, em sua maioria descendentes de "campesinos", e os familiares destes, exigindo melhores salários e condições de trabalho, diante de tanques e militares fortemente armados não poderia senão resultar em um conflito que obrigou o governo a decretar estado de sítio por um período de 90 dias.
No dia seguinte, domingo, campesinos das imediações de Achacachi, localidade agrícola a cerca de 120 quilômetros de La Paz em direção ao Lago Titicaca, bloquearam estradas exigindo a reforma de Lei Inra, que, juridicamente, organiza a propriedade da terra no país. Os campesinos exigiam também a libertação do seu máximo dirigente, Felipe Quispe, conhecido como mallcu (condor em aymara), que havia sido preso na madrugada do dia anterior por causa da greve da polícia na capital boliviana.
"O maior problema do levantamento dos campesinos daquela região é a falta de clareza em suas reivindicações", disse uma fonte do governo boliviano à Agência Estado, por telefone de La Paz. Os campesinos exigem também, segundo essa fonte, uma melhor manutenção das estradas pelas quais transportam os seus produtos agrícolas até a capital. Com a chegada dos militares, o conflito foi inevitável e um rapaz de 16 anos acabou morto.
Poucas horas antes, ainda no domingo, outro campesino também havia sido morto por militares, o que provocou a revolta da comunidade de Achacachi. Para piorar a situação, os campesinos conseguiram pegar um capitão do Exército e o espancaram quase até a morte. Não satisfeitos, algumas horas depois, se dirigiram até o hospital e o arrastaram, até a rua onde praticamente o lincharam, contou a fonte do governo boliviano. O governo do general Bánzer, hoje na reserva, decidiu então "militarizar" Achacachi, onde moram pouco menos de 20 mil campesinos.
Apesar dessa situação, disse a fonte do governo boliviano, os militares reafirmaram a sua "vocação democrática". Hoje (11), o presidente Hugo Bánzer voltou a repetir que existe no país um movimento sedicioso que quer tirá-lo do poder. "Da incitação à desobediência civil está se passando francamente à rebelião contra o poder legalmente constituído", disse.
O conflito em Cochabamba, região central do país, não tem relação alguma ao de La Paz e Achacachi. O problema lá é a falta de água. Há mais de 40 anos, essa província de quase 1,2 milhão de habitantes tem sido obrigada a conviver com o racionamento. Nenhum governo, militar ou civil, nas últimas quatro décadas, cumpriu com as promessas de resolver esses problemas.
Com a privatização da área de saneamento básico, o consórcio internacional águas del Tunari (em referência à cordilheira onde supostamente há grande quantidade de água) orçou um projeto de mais de US$ 200 milhões para satisfazer os sonhos dos incautos cochabambinos em troca de um reajuste de 35% nas tarifas de água potável que hoje sequer abastece a metade da população. Revoltados com esse aumento, a população saiu às ruas para protestar.
Ontem (10), o governo de Cochabamba quebrou o contrato com águas del Tunari e deve chamar, nos próximos dias, empresas privadas nacionais e estrangeiras para uma nova licitação. O governo de La Paz está preocupado com a repercussão da quebra desse contrato, já que pode afastar os investimentos estrangeiros no país.

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