Governo aposto no desempenho dos ministros para encerrar discussão sobre o valor do mínimo19/Mar, 20:43 Por Christiane Samarco Brasília, 19 (AE) - O governo tem agenda cheia na discussão do valor do novo salário mínimo com o Congresso esta semana e aposta no bom desempenho de seus interlocutores para forçar o fim do debate. A pauta da comissão especial que trata do assunto na Câmara prevê depoimentos de três ministros já a partir de terça-feira, mas a expectativa maior fica por conta do convidado de quinta-feira. O sucesso da estratégia do governo depende fundamentalmente do depoimento do ministro da Previdência Social, Waldeck Ornélas, legítimo representante do PFL baiano do senador Antonio Carlos Magalhães. Terça-feira, será a vez do ministro do Trabalho e Emprego, Francisco Dornelles, seguido por Pedro Malan, da Fazenda, na quarta-feira. O Palácio do Planalto espera que todos repitam a performance do ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Martus Tavares, que depôs na semana passada. Mas ainda que Waldeck seja incisivo contra a proposta do mínimo de R$ 177, defendida pelo senador Antônio Carlos, o governo avalia que não estará afastado o perigo da radicalização dos debates na comissão especial. Sem crise - Segundo um interlocutor do presidente Fernando Henrique Cardoso que participa das conversas, não há riscos de rompimento ou crise com o senador Antônio Carlos. Nem mesmo se o governo fixar o mínimo em torno dos R$ 150, quando ACM briga pelos R$ 177. Na visão do próprio governo, o depoimento de Martus contribuiu para fortalecer a tese do mínimo de R$ 150, por absoluta falta de fontes alternativas de recursos capazes de bancar um reajuste mais generoso. "Mas se houver alguma reviravolta, o Medeiros (deputado Luiz Antônio Medeiros - PFL/SP), que hoje é minoria na comissão, pode contaminar os outros com seu radicalismo", diz o interlocutor. O depoimento de Dornelles tentará ajudar o governo a convencer os parlamentares de que o salário mínimo perdeu importância no mercado de trabalho. Ele apresentará dados mostrando que o mínimo é pouco significativo para o setor privado - pois somente 10% dos trabalhadores formais recebem até R$ 136 - e que sua relevância, no setor público, está restrita aos Estados do Norte e Nordeste, justamente os mais pobres do País, que não aguentam pagar um salário maior. O peso significativo do mínimo recai, como sempre, sobre a Previdência Social, tema que será abordado por Ornélas. Dos quase 19 milhões de aposentados, mais de 12,5 milhões recebem o piso salarial do País. A Previdência já amarga um déficit da ordem de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) e, para cada um real de aumento no mínimo, a despesa cresce R$ 12,5 milhões por mês. Por enquanto, o governo acredita estar acumulando trunfos. Além do apoio do relator do Orçamento de 2000, deputado Carlos Melles (PFL-MG), que previu um mínimo de R$ 146 - que contempla apenas uma correção de acordo com a inflação no período - o governo julga contar com a simpatia do PMDB. Tanto que o presidente da comissão especial, deputado Paulo Lima (PMDB-SP), insiste na tese de encontrar um índice de reajuste maior, de comum acordo com o governo, mas nunca esquece de salientar que a comissão indicará a origem dos recursos. O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP) disse hoje acreditar que prevalecerá no governo a tese de que não haverá ganhos políticos mesmo com reajuste maior, que eleve o salário de R$ 136 para R$ 160 ou R$ 170, porque sempre será um valor aquém da necessidade real da população. "Acho que o governo optará por fixar o mínimo baseado em critérios que não comprometam a economia". Dentro dessa ótica, o ministro Martus analisa que a comissão especial foi a melhor coisa que aconteceu para o governo nesse debate. "Tivemos condições de mostrar que o salário mínimo não admite soluções voluntaristas". Segundo Martus, o desejo de um mínimo maior não é exclusividade do Congresso, porque também é partilhado por Fernando Henrique. "O Congresso não tem o monopólio do desejo de fazer o bem, da mesma forma que o governo não quer para si o monopólio da responsabilidade". Martus acrescenta que "dividir responsabilidades é prova de amadurecimento político". (Colaboraram Rosa Costa e Vânia Cristino)