Governo age preocupado com depoimento de Vieira
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Claudia Carneiro e Gerson Camarotti 
Brasília, 08 (AE) - Preocupado com o teor do depoimento que o ex-senador e ex-presidente do Banco Bamerindus, José Eduardo Andrade Vieira, fará amanhã (09) à CPI do Sistema Financeiro, o governo tentou monitorar seu antigo aliado. Hoje, durante todo o dia, Andrade Vieira - que foi coordenador da campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso em 1994 e depois ministro da Agricultura - recebeu telefonemas de antigos colegas de governo para saber sua disposição sobre o que pretende expor à CPI.
Para um ex-companheiro de governo que insistia em saber seu humor com relação ao depoimento, Andrade Vieira foi enfático: "Espere até amanhã, sente no plenário que você vai se surpreender", disse ao interlocutor.
O ex-senador, que somente na segunda-feira foi oficialmente convocado pela CPI, passou o dia hoje em sua fazenda, no Paraná, levantando as informações que trará à comissão sobre a liquidação do Bamerindus, o processo de venda ao banco londrino HSBC e o Proer, o programa oficial que socorreu o Bamerindus e outros bancos. O depoimento que o representante do banco HSBC, Michael Francis Geoghegan, faria na quinta-feira (10) à CPI foi adiado para a próxima quarta-feira, às 17h30.
Boatos - Vieira está também levantando os boatos que teriam provocado a quebra de seu banco em 1997, e que tiveram como fonte geradora a equipe econômica, segundo o ex-senador. Andrade Vieira acusa a equipe econômica de ter provocado a liquidação do Bamerindus e de o governo não ter agido para evitar a quebra do banco. Esses motivos levaram aliados do governo a tentar, inclusive, adiar ou mesmo cancelar o depoimento de Andrade Vieira, sob o temor de que ele revelasse bastidores da campanha de 1994. "Não há razão para que esse depoimento não ocorra nesta quarta-feira", reagiu o presidente do PMDB, senador Jader Barbalho (PA), um dos responsáveis pela convocação de Andrade Vieira.
O líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), rebateu as ameaças de Andrade Vieira. "Se existe há tanto tempo segredo que ele até agora não revelou, ele incorreu num grave erro de omissão, mas entendo sua mágoa", disse Virgílio, acrescentando que teria a mesma reação se tivesse perdido um banco. "Só temo que ele seja traído pelo emocional"
ressaltou. "O fato de o ex-senador ter sido ministro deste governo e ter ajudado muito o presidente em sua campanha gera tanta expectativa", observou o senador Eduardo Siqueira Campos (PFL-TO).
Para o vice-presidente da CPI, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), o depoimento de Andrade Vieira, em vez de criar obstáculos ao governo, poderá melhorar a imagem do Proer, um programa oficial que usou critérios explícitos para socorrer bancos em apuros, ao contrário da operação de salvamento dos bancos Marka e FonteCindam promovida pelo Banco Central no início do ano. "Depois do operação que favoreceu o Marka e o FonteCindam, o Proer vai acabar sendo canonizado", comentou Arruda.
Andrade Vieira rebateu a informação de que o advogado Marcos Malan, irmão do ministro da Fazenda, Pedro Malan, jamais teria oferecido seus serviços para intervir em favor do Bamerindus. "Nunca tive a cara-de-pau de ficar numa sala participando de uma reunião de ajuda aos bancos Marka e FonteCindam e depois dizer que não participei de nada", disse Andrade Vieira, numa crítica direta ao ministro Malan que negou ter tomado conhecimento da operação de socorro àqueles bancos. "Portanto, ser cara-de-pau deve ser mal de família", alfinetou ele.
Relatório - O relator João Alberto voltou atrás e decidiu novamente apressar a apresentação de seu relatório preliminar sobre a ajuda financeira do BC ao Banco Marka e ao Banco FonteCindam que resultou num prejuízo aos cofres públicos de R$ 1,574 bilhão. Ele pretendia encerrar hoje mesmo os estudos com a assessoria da CPI para finalizar o relatório e anunciou que entrega seu parecer até quinta-feira, mas admitiu que ainda hoje não tinha noção de como iria classificar a operação do BC, condenada por ele.
"Tenho três palavras - ilícito, ilegal e nula - para decidir qual delas usarei na definição da operação", afirmou Alberto, admitindo ainda não ter embasamento jurídico para classificar a operação como irregular. Mas o relator está decidido a pedir o ressarcimento do dinheiro injetado nos dois bancos pelo Banco Central. "O que sei é que essa operação não poderia ser feita, foi uma ilicitude e não me convence a alegação de que havia risco sistêmico", disse ele.
João Alberto não vai esperar pelo resultado do exame dos dados do sigilo bancário e telefônico dos envolvidos na operação
que está sendo realizado pelo senador Siqueira Campos e a senadora Emília Fernandes (PDT-RS). "Não vou esperar mais nada, já esperei muito e estou fazendo uma análise de toda a legislação de 1964 para cá, para dar o embasamento jurídico às minhas conclusões."


