Brasília, 16 (AE) - Ao mesmo tempo em que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançava, hoje, a campanha "Criança no Lixo, Nunca Mais", o governo brasileiro admitia que são poucos e mal gastos os recursos públicos destinados a acabar com os lixões, onde vivem e trabalham atualmente cerca de 50 mil crianças e adolescentes. Dos R$ 3,7 bilhões aplicados pela Caixa Econômica Federal nos dois últimos anos, apenas R$ 100 milhões envolviam projetos de tratamento de resíduos sólidos
informou o secretário de Desenvolvimento Urbano, Sérgio Cutolo.
O secretário classificou o Estado brasileiro de "inoperante" no enfrentamento do problema. Ele esclareceu que o "lixo é municipal", mas não eximiu o governo federal de responsabilidade. "A orientação para aplicação de dinheiro da União tem sido voltada para o abastecimeno de água e destinação de esgoto", disse Cutolo, defendendo maior integração no uso dos recursos existentes nos vários setores do governo. "Há uma grande dispersão de recursos, consumidos autofagicamente".
"Pouco fizemos em relação ao lixo", concordou o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, presente à cerimônia do Unicef. Ele reconheceu que cabe ao governo adotar uma política de gerenciamento dos resíduos sólidos. Sarney Filho disse que na próxima reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) será discutida uma proposta de nova política de gerenciamento de resíduos sólidos. O ministro também avalia uma forma de garantir que, mesmo inadimplentes, as prefeituras possam captar finaciamento federal para programas específicos de destinação do lixo. A assessoria da CEF informou que estão sendo investidos R$ 2 milhões em projetos experimentais para tentar solucionar o problema do lixo urbano.
Unicef - Dados de 1989 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 46 milhões de pessoas não são atendidas por programas de coleta dos resíduos e 88,02% do lixo produzido no País estão a céu aberto. Em quase 70% das cidades com mais de 50 mil habitantes e em 37,4% das capitais brasileiras, catadores vivem e alimentam-se do que é depositado nos lixões.
"O Brasil tem condições de acabar com essa situação inaceitável", disse a representante do Unicef no Brasil, Reiko Nimi. "Temos de garantir o direito à educação e saúde e chegarmos a 2002 com a certeza de não haver mais crianças no lixão." Os principais parceiro do Unicef na campanha serão as prefeituras. Cada prefeito receberá esta semana uma carta com um convite para adesão à campanha, um questionário sobre o lixão local e um termo de intenção, pelo qual compromete-se a participar, aplicando alguma das várias sugestões de experiência bem sucedidas.
O Fórum Nacional do Lixo e Cidadania, integrado por 31 entidades, compromete-se a capacitar pessoal das prefeituras e de organizações não-governamentais. Integrantes do Fórum dizem que oito municípios já obtiveram sucesso na retirada dos lixões de 500 crianças.

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