Governo abre caminho para empresas com emissão de euros, mas o preço é alto
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sábado, 10 de julho de 1999
Por Cleide Sánchez Rodríguez 
São Paulo, 11 (AE) - O Brasil voltou ao mercado internacional em busca de recursos antes do esperado. Mas o preço da passagem de volta está alto: a prova foi a emissão em euros na quinta-feira. O juro nominal de 12,2% ao ano (em dólar) ficou bem acima do da emissão em dólares em abril, quando os US$ 3 bilhões em bônus saíram por 11,6 % ao ano. A piora do cenário externo diante da perspectiva de alta nas taxas de juros dos EUA tornou os investidores ainda mais arredios aos países emergentes
elevando a remuneração desses papéis.
O presidente do Dresdner Bank, Winston Fristch, lembrou que os mesmos bônus da República lançados três meses atrás, são cotados no mercado secundário a 13,3%. Ou seja, remuneração só um ponto acima da emissão em euros, o que é perfeitamente compreensível pela diferença de prazo entre o bônus global - cinco anos - e do europeu - três anos. Felipe Pontual, da BBA Securities, de Nova York, resume a situação: esse é o preço de hoje para voltar ao mercado internacional. Para ele, as duas emissões soberanas mostraram que está sendo possível formar uma taxa referencial de rentabilidade para papéis brasileiros de diferentes prazos, abrindo espaço para as captações privadas.
Segundo os especialistas, esse é o papel da República agora. Como uma "comissão de frente", ela abre caminho na busca dos recursos em euro e em dólar e estabelece referências de preço para os bancos e empresas. Estes vêm em seguida. Cautela - A retomada dos tomadores nacionais é aguardada para setembro, após a férias do Hemisfério Norte. Isso não significa, porém, que nada vai ser feito até lá. O Unibanco, por exemplo, deve captar nos próximos dias mais US$ 100 milhões, dos quais boa parte será repassada para clientes exportadores. E, segundo o mercado, a VBC Energia (ou uma de suas controladas) estaria preparando uma emissão de aproximadamente US$ 200 milhões.
Os cautelosos estimam que cerca de 20 bancos e empresas procurem o mercado externo em busca de recursos. Outros, mais otimistas, acham que o número pode ser o dobro. O certo é que a volta será gradual e os resultados obtidos, por melhores que sejam, serão bem piores que os anteriores às crises dos mercados internacionais. Em 1996, por exemplo, o total de emissões foi de US$ 19,6 bilhões, montante que pulou para US$ 28,7 bilhões em 1997, caindo para US$ 17,9 bilhões em 1998, após a crise asiática.
Airton Villafranca, diretor do Chase Manhattan, está na lista dos cautelosos. Acredita que, mantido o cenário atual, será possível chegar a 20 emissores. Ele não conta as captações "oportunistas" no curto prazo. Ou seja, as empresas que no passado faziam uma captação por ano para aproveitar os juros mais baixos em relação aos internos. Essas empresas devem ficar de fora um bom tempo, procurando alternativas locais.
A estratégia das companhias, de acordo com Villafranca, vai depender das necessidades individuais e das condições de mercado. Os empréstimos serão renovados, até porque o volume é pequeno, pouco mais de US$ 1 bilhão, segundo a Associação Brasileira dos Bancos de Investimentos. Mas também porque as empresas que recorreram a esse tipo de financiamento são ex-estatais ou grupos que acabaram comprando companhias nos leilões de privatização. A expectativa de muitas delas era fazer inicialmente um empréstimo bancário e depois tranformá-lo numa emissão externa, quando a situação do mercado melhorasse.
Já a rolagem de dívidas contraídas por meio de emissão de títulos vai depender das condições de mercado. Por enquanto, a expectativa é de rolar os vencimentos. A Petrobrás, por exemplo, já começou a renovação de uma parcela de US$ 250 milhões que vence em setembro. Mas a Petrobrás é o tipo de empresa que, mesmo nos piores momentos, tem acesso garantido ao mercado internacional. Leandro Miranda, do Bozano, Simonsen, tem uma lista de 40 empresas com chances de buscar recursos no exterior.
"Existe demanda para empresas de primeira linha e operações com prazo de seis meses a um ano e valores variando entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões", garante. O banco, aliás, participou direta ou indiretamente em cerca de 60% das emissões feitas até o momento. O próprio mercado reconhece que as últimas operações coordenadas pelo banco foram bem-sucedidas. O custo das operações tem saído, em média, na faixa de 13% ao ano. Mas Miranda destaca que as taxas de financiamento podem cair até um ponto porcentual.


