São Paulo, 16 (AE) - A possibilidade de o processo de impeachment ser aberto ainda nesta semana pela Câmara Municipal de São Paulo dividiu os vereadores que integram a base de sustentação do Executivo, dificultando a definição de uma estratégia para barrar o início das investigações já na sessão de terça-feira (18) à tarde. Essa dificuldade existe porque, além de uma parte dos vereadores governistas já ter declarado voto contra o prefeito Celso Pitta (PTN), os que temem a instalação da Comissão Processante ainda temem dizer não em plenário por causa do inevitável desgaste político-eleitoral que terão de enfrentar.
Além do secretário do Governo Municipal, Carlos Meinberg
e alguns poucos vereadores aliados, Pitta assumiu pessoalmente a articulação.
Desde quinta-feira (13) à tarde, o prefeito e os seus operadores políticos têm procurado os parlamentares mais resistentes para tentar convencê-los a "discutir tecnicamente" a questão.
A intenção é mostrar que o relatório assinado pelo vereador Brasil Vita (PPB), aprovado por Wadih Mutran (PPB) e Ivo Morganti (PMDB), rejeitou juridicamente todos tópicos da extensa denúncia apresentada pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP). Ao mesmo tempo, apresentarão o voto em separado das oposições na Comissão Especial, que foi aprovado graças ao voto do vereador governista Natalício Bezerra (PTB).
A intenção de Pitta, segundo alguns governistas, é mostrar que os próprios vereadores serão alvo das investigações, pois foram incluídos pelos vereadores do PT, PSDB e do PL - respectivamente Arselino Tatto, Gílson Barreto e Cármino Pepe.
Se conseguir convencer os parlamentares resistentes, o governo não terá mais do que duas alternativas. A primeira é pedir que garantam o quórum de 33 votos para o relatório ir a voto, depois terá de ter um grupo que vote contra e, na pior das hipótes, garantir número necessário de abstenções ou ausências para que a oposição não consiga os mínimo de votos necessários para aprovar o início do processo.
Um dos vereadores procurados pela tropa de choque "pittista" - o nome do interlocutor não foi revelado - foi o vereador Mílton Leite (PMDB). Ele, que já declarou-se favorável ao início das investigações na Câmara, recebeu um telefonema, antes do início da tarde de hoje.
"Você aceita discutir, tecnicamente, os dois relatórios da Comissão Especial com o Executivo?", perguntou o interlocutor do governo. " Não. Já tomei a minha decisão", respondeu Leite. "Tá bom", disse o interlocutor do governo. A conversa foi confirmada por vários parlamentares da base governista.
A reportagem procurou Leite por telefone, mas não o localizou até o fim da tarde de hoje. Os vereadores pemedebistas tornaram-se os mais importantes para o governo na luta contra o início do processo de impeachment. Com uma bancada de 10 parlamentares, o partido passou a ser uma peça chave porque poderá decidir a votação prevista para terça-feira (18).
Desde sexta-feira (14), comenta-se na Câmara que a vereadora Myryam Athie (PMDB), que está doente, estaria sendo pressionada pelas facções pró e contra as investigações. Em nota oficial distribuída semana passada, Myryam afirmou que seguiria a orientação dos diretórios Municipal e Estado do PMDB e votaria a favor do início do processo.
Depois dessa declaração, Myryam teria sido procurada em sua por dois companheiros de partido para mudar de posição ou asentar-se na sessão. Procurada pela reportagem, Myryam não foi localizada e não retornou o recado deixado em sua secretaria eletrônica.
O vereador Miguel Colasuonno (PMDB), que já havia dito que a princípio votaria a favor das investigações e agora está reavaliando a sua posição, está ajudando o Executivo a tentar abortar o processo. Ao ser questionado como seria o seu voto se a sessão fosse hoje (ontem), respondeu: "Provavelmente, reajiria contra".
Novamente perguntado se isso sifnigica votar contra o impeachment, Colasuonno saiu-se com essa: "Votar contra é consequência." Colasuonno passou a defender a tese de que a inclusão de nomes de alguns vereadores no relatório realizado pela oposição na Comissão Especial manterá a Câmara Municipal "injustamente" no atual processo político.
"A abertura de uma Comissão Processante vai manter a Câmara como bode expiatório e servir de palanque político-eleitoral para o PT e o PSDB durante 90 dias", argumentou Colasuonno. "A Câmara precisa ser preservada, parando, com coragem e coerência, esse festival de politicagem." Os diretórios Municipal e Estadual do PMDB, que tentaram preservar a imagem do partido orientando os vereadores a votar a favor da admissão da denúncia da OAB-SP, devem convocar uma nova reunião para o início da noite de amanhã (17). De acordo com parlamentares que integram a executiva municipal do partido, a intenção é fechar questão pelo início das investigações.
No PPB, o ex-partido de Pitta que ainda é controlado pelo ex-prefeito Paulo Maluf, a maioria deve apoiar o prefeito. Há, entretanto, dissidências estimuladas por causa da pressão popular.
Entre os dissidentes, está o ex-secretário das Administrações Regionais e vereador pelo PPB, Domingos Dissei. Ele assumiu posição favorável ao início das investigações.
"Votarei a favor, até porque acho que será uma chance de o prefeito provar a sua inocência em relação a todas essas denúncias", justificou.
Ele disse que, como passou a maior parte do fim de semana fora de São Paulo, não conversou com nenhum representante do governo ou integrante da base governista.
Dissei citou o resultado da pesquisa InformEstado, segundo a qual a maioria da população quer o impeachment de Pitta. "Não dá para arriscar ir contra opinião pública, porque depois vão nos cobrar isso nas ruas", afirmou.
A oposição, que tem de conseguir pelo menos 33 votos para conseguir iniciar o processo de impeachment, não está prevendo nenhuma grande estratégia. Promete os tradicionais atos públicos e um grupo mais isolado estuda uma ação judicial, para anular a sessão em caso de derrota em plenário alegando que parlamentares com interesse próprio em envitar as investigações votaram contra e teriam de declarar-se impedidos, como determina o Regimento Interno da Câmara. Com isso, assumiriam os suplentes. Sem vínculo com o governo municipal, poderiam dar a vitória para a oposição.

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