Brasília, 17 (AE) - Os governadores do PT estão insatisfeitos com o ritmo das negociações com o governo federal em busca de alternativas para a crise financeira dos Estados. Eles cobram posição do governo diante da proposta de pacto federativo e avisam que vão continuar insistindo num menor comprometimento da receita dos Estados com o pagamento da dívida.
Reunidos hoje em Brasília com a cúpula partidária, os três governadores do PT reforçaram que vão manter uma relação "administrativa" com o governo federal, mas politicamente poderão engrossar a oposição ao Palácio do Planalto.
"Nem tanto Maria Luíza, nem tanto Vítor Buaiz", resumiu um dos dirigentes petistas, referindo-se ao à ex-prefeita de Fortaleza que adotou discurso extremo de oposição ao governo, e ao ex-governador do Espírito Santo que rompeu com o partido pelas por ter sido tão moderado com o governo federal. Apesar de insistirem no "equilíbrio" entre governo e partido, os governadores petistas estão dispostos a reintegrar o governador mineiro Itamar Franco no fórum das oposições. "Itamar faz falta ao fórum", disse o governador do Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos (Zeca do PT).
A postura mais ofensiva diante do governo federal será a base de uma série de eventos que os partidos de oposição vão realizar a partir da póxima semana, para contrapor-se à política econômica do governo e reivindicar a recuperação dos salários. O PT vai convidar os governadores dos outros partidos para um grande ato no Rio Grande do Sul a ser agendado. Já está prevista uma sequência de manifestações nos Estados que culminarão no ato de 1º de maio.
O governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, questionou hoje a intenção do governo de alcançar um acordo satisfatório com os Estados. "A negociação está avançando muito lentamente, num ritmo muito diferente do que esperávamos", disse o gaúcho. "Ou o governo está atrapalhado, ou está lidando com a gente com um pau de dois bicos", continuou ele, sugerindo má vontade do governo federal no processo de negociação com os Estados.
Para o governador Zeca do PT, a fase de negociações iniciada com a reunião promovida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso tem, por enquanto, efeito praticamente nulo para os Estados. "Não melhorou absolutamente nada a situação dos Estados, porque até agora não entrou dinheiro nenhum", disse ele. Olívio Dutra voltou a cobrar do governo a suspensão dos bloqueios ao Rio Grande do Sul e um acerto de contas para que o governo estadual seja ressarcido do valor de obras e outros gastos que, segundo o governador, deveriam ser assumidos pela União. A soma feita por Dutra é de R$ 8 bilhões.
"Nós queremos que o presidente da República faça valer o compromisso conosco de criar condições políticas para suspender retaliações contra o Estado, porque, até agora, ele só levantou o bloqueio feito através de organismos internacionais", cobrou Olívio Dutra. O governador ameaçou reagir com instrumentos constitucionais, mas, no Ministério da Fazenda, já era anunciada a informação de que o governo federal não suspenderá os bloqueios de recursos do Rio Grande do Sul.
"Não temos margem nenhuma para suspender os bloqueios", alegou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente. Segundo ele, o Estado já foi informado de que continua inadimplente pelo não pagamento de parcela da dívida com a União. Os bloqueios realizados pelo governo federal atingiram os recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE), arrecadação do IPI sobre Exportação e os repasses da Lei Kandir.
A reunião da cúpula petista serviu para que os governadores reforçassem sua postura de independência para negociar com o governo federal. "O governo federal e os governos estaduais precisam ter uma relação institucional", disse o governador do Acre, Jorge Viana. Mas o discurso político contra o governo ficará mais ofensivo. "Podemos encontrar uma posição de equilíbrio entre nossa relação administrativa com o governo federal e a defesa de nossas posições políticas", propôs Olívio Dutra durante a reunião.

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