Buenos Aires, 25 (AE) - "Se os empresários têm liberdade para tomar a decisão de mudar-se ao Brasil, nós também temos liberdade para excluí-las como provedores." Este duro recado foi dado pelo governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, que anunciou um boicote a "todo tipo de compras" de serviços ou produtos de empresas que emigrem para o Brasil de forma total ou parcial.
Também serão atingidas aquelas que simplesmente anunciarem que estão analisando sua partida. "Excluiremos estas empresas do registro de provedores", disse. O motivo desta medida, segundo Ruckauf, é a "contínua concorrência para levar empresas argentinas para o Brasil". O anúncio oficial será feito no dia 1º de março, quando o governador também lançará a campanha "compre produtos argentinos".
Segundo Felipe Solá, vice-governador de Buenos Aires, a punição planejada por Ruckauf implicará na suspensão de compras por parte do governo durante 20 anos. Além disso, declarou que serão punidas as empresas que forem "associadas ou que sejam sucursais de empresas brasileiras".
Ruckauf afirmou que o presidente Fernando De la Rúa seguiria a mesma linha: o governador sustenta que De la Rúa assinaria um decreto "nas próximas horas ou dias" para combater o êxodo de empresas ao Brasil. No entanto, este decreto consistiria em medidas para estimular as empresas a permanecerem no país, e não impedi-las de saírem.
O anúncio de Ruckauf foi realizado poucos dias depois da divulgação de um relatório onde sustenta-se que 80% das empresas de auto-peças da província de Buenos Aires fecharam suas portas e estão a ponto de mudar-se ao Brasil.
Os números exatos de empresas em todo o país que teriam partido parcial ou totalmente para o Brasil é motivo de discussão entre analistas, que oscilam entre 40 e 80. Há dois meses, a União Industrial Argentina (UIA) alardeou em um relatório que seriam 100. O estudo, que comentava incríveis estímulos industriais e fiscais nos municípios brasileiros, tornou-se em um feitiço que virou contra o feiticeiro: a intenção era pressionar o governo, mas o relatório provocou uma avalanche de consultas na embaixada brasileira sobre traslados ao Brasil.
"Agora todos falam entusiasmados em ir embora", disse à Agência Estado o pequeno empresário Gabriel Di Campli, que está de malas prontas, e a ponto de transferir ao Brasil sua empresa de máquinas de produtos plásticos.
Os pequenos falam abertamente, mas as grandes empresas, que só trasladam-se parcialmente, ainda mantendo parte da produção na Argentina, evitam falar com a imprensa, por temor de serem tachadas de "antipatrióticas" e sofrerem sanções.
Ruckauf foi vice-presidente e agora governa a mais importante e rica província do país, onde concentra-se um terço da população argentina.
Depois da derrota do peronismo nas eleições presidenciais no ano passado, Ruckauf desponta como o mais forte líder do partido
agora na oposição. Seu início na carreira política foi tenebroso: em meados dos anos 70 tornou-se o mais jovem ministro da presidente Isabelita Perón, ocupando a pasta do Trabalho. Ali
foi um dos que assinou o decreto de "aniquilação da subversão", que deu início à repressão que durante a Ditadura Militar causou a morte de 30.000 pessoas.
Segundo a embaixada do Brasil em Buenos Aires, o governo brasileiro preocupou-se com a proposta de Ruckauf. "Se for aprovada, traria efeitos desastrosos para a relação Brasil-Argentina e para o Mercosul".
A embaixada, no entanto, preferiu evitar comentários sobre o projeto, já que ainda não foi debatido e nem sequer aprovado.

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