O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Pontal do Paranapanema, José Rainha Júnior, disse ontem que seus advogados podem chamar o governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), para depor em seu favor no segundo julgamento por duplo homicídio do líder sem-terra, dia 16 de setembro, em Pedro Canário (ES). Em entrevista a correspondentes estrangeiros, no Sindicato dos Engenheiros, no Rio, Rainha afirmou que, caso seja condenado, ‘‘vai haver reação do MST’’.
Jereissati seria chamado porque reuniu-se com Rainha no Ceará no dia 31 de maio, cinco dias antes dos assassinatos do fazendeiro José Machado Neto e do PM Sérgio Narciso em Pedro Canário, crimes dos quais Rainha é acusado. Ele informou que ainda vai reunir-se com os advogados para definir as cinco testemunhas que serão arroladas para o júri. O líder do MST foi condenado a 26 anos e meio no dia 11 de junho, e ganhou direito a novo júri porque a pena ultrapassou 20 anos.
Como o governador não mora em Pedro Canário, onde ocorreu o crime, ele não seria obrigado a prestar depoimento, mesmo se fosse arrolado. O advogado Jovelino Strozake, um dos defensores de Rainha, confirmou que vai ser pedida ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJ-ES) a transferência do júri para Vitória. O juiz de Pedro Canário, no dia 11 de junho, afirmou que não cabia mais pedido de transferência, depois que a defesa pediu e conseguiu novo julgamento.
O líder afirmou que a reação do MST à sua possível condenação seria pacífica, manifestada em passeatas e atos de protesto, mas não quis detalhar como ela poderia acontecer. ‘‘Ainda é muito cedo para prever isso’’, disse. Segundo ele, dois integrantes da Anistia Internacional irão a Pedro Canário assistir ao júri.
Rainha afirmou que a repercussão negativa à sua condenação atingiu até os cidadãos de Pedro Canário, como o prefeito Athaydes Canal (PFL). Mesmo assim, Strozake afirma que, caso o júri aconteça novamente na cidade, ‘‘as perspectivas não são as melhores’’. Segundo o advogado, das 120 pessoas que vão servir para o sorteio dos jurados, a maioria está ‘‘ligada ao grande latifúndio’’.
Rainha criticou o presidente Fernando Henrique Cardoso, que afirmou a um jornal português que os sem-terra não têm nada a ver com agricultura, porque não produzem. ‘‘Se é assim, de que serviu a pesquisa que o Ministério da Reforma Agrária fez?’, questionou, lembrando o levantamento do ministério cuja conclusão foi de que a maior parte dos sem-terra em assentamentos são de origem rural, e não urbana.
O líder sem-terra afirmou que o movimento não vai se tornar um partido. ‘‘Não é papel do MST apresentar política para o Brasil’’, afirmou Rainha, para quem seria um ‘‘equívoco’’ o movimento tornar-se legenda política. ‘‘Não me sentiria bem ocupando cargo político’’, disse.

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