Governador do ES determina prisão de coronel da PM
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quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo 
Vitória, 20 (AE) - O governador do Espírito Santo, José Ignácio Ferreira (PSDB), determinou hoje a prisão por 30 dias do coronel Walter Gomes Ferreira e seu imediato afastamento da Diretoria de Ensino da Polícia Militar. O governador determinou ainda que o Gabinete Militar investigue o comandante geral da PM
coronel João Carlos Batista. A decisão de José Ignácio foi tomada a pedido da CPI do Narcotráfico, que deixou hoje o Estado depois de três dias de investigação. Os dois oficiais são acusados de serem coniventes com a fuga de um traficante de drogas, em Cariacica (Grande Vitória), em junho de 1998.
Na noite de quarta-feira, coronel Ferreira havia sido acusado pelo ex-subcomandante da PM, Marcos Antônio Santos, com quem foi acareado, de ser o líder da "banda podre" da polícia capixaba e de ser o autor de vários crimes de mando no Estado - como o do padre Gabriel Maire, ocorrido em 1989, e do comerciante João Luiz da Silva, dono do Thiagos Bar. O assassinato de Silva foi um dos motivos que levou a CPI a pedir o indiciamento do presidente da Assembléia Legislativa, José carlos Gratz (PFL), em dezembro. A suspeita de que o deputado seria um dos mandantes do crime, já que Silva lhe devia R$ 100 mil. Parte da dívida - R$ 20 mil - foi paga com um cheque sem fundos.
A vinculação entre Ferreira e o comandante geral da PM está em um depoimento prestado em 12 de dezembro de 1998 pelo soldado Oséas de Souza Gomes à Corregedoria de Polícia Militar. No documento, o soldado afirma que o coronel Ferreira, então comandante do 7ª Batalhão de Polícia Militar de Cariacica, teria lhe obrigado a soltar o traficante Zuloago Cristo, o Zuninho, que havia sido preso por Oséas em uma operação policial.
"Eu vou ser claro e objetivo: você mexeu com um peixe meu"
teria dito Ferreira, após ser informado da prisão do traficante
como relata o subordinado no depoimento. Logo depois, o coronel determina ao soldado que liberte o traficante e ainda lhe dê uma "pistola, um trinta e oito e uma doze". O soldado conta que resolveu, então, procurar o comandante geral da PM. A ajuda, porém, é em vão. De acordo com Gomes, o coronel Batista teria respondido que o traficante não tem registro (na polícia), porte (de armas) e sua índole "não importava", indicando que sua prisão era desnecessária.
"Mandei prender o coronel Ferreira, para que o processo de investigação não seja prejudicado por nenhum tipo de pressão ou influência interna à polícia", disse o governador, que acredita
porém, na boa fé do comandante geral da PM. "Mesmo assim vou investigar, porque o meu governo é sério e limpo." Antes de se encontrarem com o governador, os deputados da CPI ouviram o traficante identificado como Senhor Y revelou hoje à CPI do Narcotráfico que empresários e policiais capixabas acobertaram um sofisticado esquema de envio de cocaína para Europa e Estados Unidos, montado por traficantes da Colômbia e do Paraguai, entre os quais Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
Segundo a testemunha, um dos empresários seria Paulo Amorim, pré-candidato a prefeito de Guarapari pelo PFL, a 100 quilômetros de Vitória. Amorim é apoiado pelo presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, José Carlos Gratz (PFL), acusado de ser um dos líderes do crime organizado no Estado.
Na lista de policiais citados pelo Senhor Y aparece o coronel Ferreira. "O que podemos constatar é que onde há crime organizado, há tráfico de drogas, existe uma conexão até geográfica entre os dois", afirmou o relator Moroni Torgan (PSDB-CE). Antes de ser preso pela Polícia Federal, Senhor Y atuou no Pará e em Mato Grosso, sempre com quadrilhas que usavam o Espírito Santo como rota de saída da cocaína.
A testemunha contou que passam pelo Espírito Santo, mensalmente, 1,4 tonelada de cocaína vindos da Colômbia, pela rota do Paraguai. Desse total, entre 800 quilos a uma tonelada seriam destinadas ao consumo interno, enquanto o restante era exportado para o Estados Unidos e, preferencialmente, a Europa. A droga chegaria ao Estado em aviões com tanque de combustível adulterado, para aumentar a autonomia de vôo.
A cerca de milhas do porto, a cocaína era lançada ao mar em tonéis de borracha, que, ao se chocarem na água, emitiam sinais luminosos, para chamar a atenção dos receptadores, que já aguardam a mercadoria, previamente, em pequenas embarcações. Depois de resgatada, a droga era levada para navios atracados no Porto de Vitória e, de lá, exportada. "Os barcos-receptadores e os aviões eram munidos de GPS (equipamento eletrônico de localização via satélite), para que não houvesse perigo de que se perdesse o ponto exato de onde os tonéis seriam lançados", afirmou Torgan.
O empresário Paulo Amorim disse não ter nada a temer e que os seus sigilos bancário, fiscal e telefônico estão à disposição da CPI. "Sou uma pessoa conhecida mundialmente por ser recordista em pesca de marlin azul, talvez por isso me fizeram essa acusação", disse Amorim. O empresário contou que tem dois barcos e que desde 1990 pratica pesca submarina.
"Se os deputados quiserem podem olhar as as rotas que eu fiz desde 90, porque ainda continuam gravadas no meu GPS", disse. Paulo Amorim, que foi motorista do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes), hoje é dono de duas empresas - uma construtora e uma companhia de turismo - e de uma pousada em Guarapari. "Meu patrimônio foi construído com o meu trabalho, não veio de dinheiro ilícito", disse.
Foi ouvido ainda o soldado Eldon Alves Pereira, que teria facilitado a fuga do traficante Marcelo Barbosa, o Coelho, do presídio de segurança máxima de Colatina, a 141 quilômetros de Vitória, há uma semana. Barbosa seria ouvido na CPI e pretendia, segundo o relator Moroni Torgan (PSDB-CE), revelar todo o esquema de corrupção e crime organizado chefiado pelo coronel Ferreira.
Pereira contou que o traficante tinha as chaves de sua própria cela e que, de dia, ele circulava "livremente" pelo presídio. O soldado contou ainda que comprova comida e cigarros para o traficante, porque, segundo o policial, Barbosa "não comia a refeição de presídio". "De segurança máxima, esse presídio de Colatina não tem nada, parece mais uma colônia de férias", disse o deputado Cabo Júlio (PL-MG).


