Buenos Aires, 01 (AE) - "Eu digo aos brasileiros que não é atitude de um bom sócio vir aqui pegar nossas empresas. Um vizinho não entra na casa do amigo para pegar seu abajur e sua mesa de jantar. Um bom amigo vem aqui para ajudar a competir com o exterior". A declaração do governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, foi apenas uma da saraivada de críticas que disparou contra o Brasil. As declarações ocorreram hoje (01)
durante o discurso de abertura das sessões legislativas da província. Nos últimos dias, o governador da província mais importante da Argentina, onde concentra-se a maioria das indústrias e um terço da população do país, começou uma campanha protecionista, atacando as empresas locais que mudaram-se para o Brasil.
Ruckauf anunciou que apresentará um projeto para que as compras do governo provincial sejam somente realizados de empresas locais: "não compraremos mais insumos estrangeiros". Embora não tenha entrado em detalhes, nos dias anteriores Ruckauf havia dito que o projeto prevê a suspensão de compras de empresas argentinas que emigrem para o Brasil de forma total, parcial ou que somente anunciem que estão analisando sua mudança. No discurso, o governador afirmou que "o governo provincial tem que usar o poder de compra para impedir que as empresas emigrem. Posso assegurar que o governo federal também tomará medidas na defesa da indústria nacional". Ruckauf disse que "defende" o Mercosul, "mas que não está disposto a aceitar que os estados do Brasil venham à nossa província tirar nossas empresas".
Pouco antes do discurso, Ruckauf referiu-se às recentes visitas do governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira; e de Esperidião Amin, de Santa Catarina: "estas vindas de governadores brasileiros com políticas agressivas para captar investidores, não me parecem atitudes de um país-sócio do Mercosul".
Durante o discurso, Ruckauf também opinou sobre política interna do Brasil, afirmando que o presidente FHC não controla os governadores brasileiros: "no Brasil eles não obedecem ao presidente da República.
No ano passado, a partir da posição do governador Itamar Franco, começou a desvalorização do real. Hoje, os governadores se conduzem de forma aparentemente autônoma".
Ruckauf foi um apagado vice-presidente no segundo mandato do ex-presidente Carlos Menem. No entanto, após vencer as eleições para o governo da província, em outubro, começou a despontar como líder do Partido Justicialista (também conhecido como "Peronista"), agora na oposição. Automaticamente, começou a ser encarado como um fortíssimo presidenciável para as eleições de 2003.
A ofensiva anti-brasileira realizada pelo peronismo também se evidenciou no Congresso: deputados peronistas apresentaram um projeto de declaração de repúdio por uma guia de investidores elaborado pela Embaixada do Brasil. O guia, um costumeiro manual de procedimentos sobre como investir no país, foi encarado pela mídia argentina como uma traiçoeira tentativa de seduzir o empresariado para mudar-se ao Brasil.
O autor do projeto é o deputado Carlos Alessandri, um dos principais aliados do governador da província de Córdoba, José De la Sota.
O presidente Fernando De la Rúa também fez seu discurso, mas com um tom contrário ao de Ruckauf: na abertura das sessões anuais do Congresso Nacional, disse que seu governo "trabalhará na consolidação do espaço regional. Na década de 80, o Mercosul era importante e conveniente, mas não parecia necessário. Hoje, ele é imprescindível como opção estratégica". Segundo De la Rúa
"concordamos com nossos sócios na necessidade de impulsionar o Mercosul. Juntos, conquistaremos novos mercados. Somo países emergentes e não podemos nos dar o luxo de não nos unirmos para competir juntos lá fora". No entanto, De la Rúa deixou um sutil recado protecionista: "temos que nos unir, conquistar novos mercados, e com a mesma energia, defenderemos a produção da indústria nacional".
Ruckauf, que assistiu o discurso, afirmou que "a situação do Mercosul é delicada", e disse que discordava do presidente; "não acho que o Brasil queira concorrer junto conosco. Acho que eles querem concorrer contra nós".
As empresas de implementos agrícolas anunciaram que poderiam ser eliminados 1.800 empregos por causa da drástica queda de 40% nas vendas em 1999, em relação a 1998. A Câmara Argentina de Máquinas Agrícolas sustenta que a concorrência brasileira é culpada em boa parte da crise, e a definiu como "desleal". No setor automotivo, a crise é atribuída ao pacote tributário. A Ford confirmou que nesta semana suspenderá 800 dos 1.950 operários. A Iveco ainda mantém suspensos 291 funcionários. Além disso, a Renault está definindo com o sindicato o futuro de 250 operários, que poderiam ser despedidos.